
TRECHO 1
“O tempo passou entre calangos e corrupiões; se não fiquei feliz, de dar risada à toa, também não fiquei triste. Apreciei o baixar do sol no horizonte e o refrigério de umas gotas de chuva para esticar minha estadia até o cair da noite, só não fiquei mais porque a curiosidade sobre as notícias da corte me obrigou a levantar acampamento e pedalar de volta à pensão.
“Em Brasília, dezenove horas…”
Entre as notícias, fui surpreendido pela leitura de trechos de um documento denominado “Carta aos Brasileiros”. Nada de estranho quanto ao conteúdo do que ouvia, era aniversário, sesquicentenário dos cursos jurídicos no reino; o que estranhei foi o local de onde se lia a carta: o pátio da minha faculdade. Embora longe da escola há algum tempo e preocupado, mais com o meu próprio sustento e menos com os eventos acadêmicos, não há jovem recém-formado que não se emocione com tal situação. A escola é quase como gente da família, de tanta convivência vira parente próximo; ouvir aquilo foi como ouvir o nome do irmão ou da prima no noticioso do reino.
“Dessas arcadas, do território livre dessa academia, dirigimos, a todos os brasileiros esta Mensagem de Aniversário, que é a Proclamação de Princípios de nossas convicções políticas…
…
Queremos dizer, sobretudo aos moços, que nós aqui estamos e aqui permanecemos, decididos, como sempre, a lutar pelos Direitos Humanos, contra a opressão de todas as ditaduras.
…
Ditadura é o regime em que o Poder não vem do Povo. Ditadura é o regime que castiga seus adversários e proíbe a contestação das razões em que ela se procura fundar. Ditadura é o regime que governa para nós, mas sem nós. Como cultores da Ciência do Direito e do Estado, nós nos recusamos, de uma vez por todas, a aceitar a falsificação dos conceitos. Para nós a Ditadura se chama Ditadura, e a Democracia se chama Democracia”.
Se eu não estivesse deitado na cama da pensão, teria caído para trás. Como aquelas palavras podiam ser ditas no noticioso oficial da corte? Qual seria o mistério? A dúvida não empanou minhas duas alegrias: reconhecer o local de onde se lia e ouvir o teor libertário daquelas palavras. Esse segredo só foi revelado após minha volta a São Paulo, dois meses depois, quando se acabaram as férias duplas e o dinheiro. O jurista que escreveu o texto e o leu em frente às arcadas era avesso às esquerdas e hostil ao marxismo, além do passado notório de integralista; mas inimigo da ditadura. Estava explicado.”
TRECHO 2
Ah! Que êxtase. Gostaria de grudar nossa pele com tachinhas, para nunca mais desgrudar. Respondeu-me que os tempos eram outros, ela estava mais madura e sabia que não iria suportar o peso de um relacionamento sério, um compromisso. Queria se divertir mais, ganhar dinheiro, viajar. Falou que sentia náuseas só de pensar em engravidar. Esta conversa me fez desconfiar que tínhamos muito tesão e pouco amor. Até fiz um poema para me despedir definitivamente, um poema raivoso dizendo-lhe que eu preferia a solidão.
Preferência
Embora tenhas no pescoço a marca dos meus dentes
e eu me lembre do teu cheiro tão frequentemente.
Prefiro minhas noites maldormidas; se de mim não gostas.
Melhor a noite sólida que tuas unhas em minhas costas.
Sei que tua boca ainda tem meu hálito
e ainda sentes o meu peso em teu peito.
Ganhaste a guerra e me perdeste; não tem jeito.
Não sofro mais de amor; perdi o hábito.
Tua imagem some lenta, em fumaça.
Pouco importa se chove ou se é sol,
pouco importa meu suor em seu lençol.
Não choro mais de amor, não há quem faça.
Embora sinta na pele, tua textura macia
e chore tua ausência na noite vazia.
Se a minha tristeza te dá essa enorme alegria,
prefiro a solidão. É melhor companhia.
Assim terminou o grande amor das peles grudadas por tachinhas; mas esse não foi o fim definitivo, vieram outros finais, fomos e viemos mais algumas vezes, até esgotar a lata de emoções confusas que nos uniu por certo tempo. Depois, virou amizade, depois sumiu de vez; pode ser que ainda vire amizade um dia; ou amor, quem sabe? Nem sei por que comecei a pensar na Cíntia durante aquela viagem; talvez tenha sido a alegria de voltar às origens ou a lua cheia colorindo a noite do sertão, que eu guardo na memória como se fosse uma fotografia. Naquela viagem apaziguei a angústia de não saber direito o que eu sentia por ela e ela por mim. Aquela moça me deu muitas alegrias, me fez dar risada e me fartar no seu sexo vibrante, alvoroçado. Me trouxe riso e choro; e depois me afastou completamente, porque não comportava mais a minha imaturidade. Quantas vezes imaginei um incêndio na escola, só para salvá-la e provar que eu a amava mais que a mim próprio, sem compreender que o amor não se prova com heroísmos, mas no dia a dia, com paciência, com desprendimento no lugar dos ciúmes, com amparo no lugar da arrogância dos pequenos atos insuportáveis. Agora, passados anos, penso nela com doçura e gratidão pela alegria a mim concedida; tenho a alma em paz, apenas sinto que não tivemos tempo de transformar a louca paixão em amor.
Marco Cotrim
Agosto/25
Conversa
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