Nádia estranhou a ausência do portão de ferro com a frase — Arbeit macht frei — e guardou a dúvida para quando retornassem. O guia deveria saber o motivo.
Continuaram a caminhar e atravessaram o portão. A paisagem mudou, os campos arados foram substituídos por arruamentos quase sem construções. A maioria dos terrenos era demarcada apenas pelas ruas de terra batida e mato baixo. Alguns terrenos continham restos de tijolos, um pedaço de chaminé aqui, um resto de muro ali e grandes peças de madeira amontoadas, envelhecidas pelo tempo ou calcinadas. Tudo cercado por arame farpado.
Pararam em um vagão pintado de vermelho, de ferro e madeira bruta, trancado com um cadeado amarelo. Nádia observou a falta de janelas.
Aquelas frestas, entre as tábuas do vagão, não seriam suficientes para a passagem de ar para cinquenta ou cem almas amontoadas lá dentro.
Será que havia outras aberturas?
Nádia não sabia se chegaria ao final. Trêmula pelo que já vira e ansiosa pelo que poderia ver. A respiração começava a pesar, faltava-lhe o ar.
Dirigiram-se a um dos dormitórios, que se parecia com um grande armazém de madeira. As camas eram prateleiras empilhadas, com estrados de tábuas. Cada pilha de camas estava a quarenta centímetros das pilhas vizinhas.
Nádia fechou os olhos e “enxergou” os corpos maltratados, estirados sobre as tábuas. Fotografou a primeira fileira de camas: Só a exaustão extrema permitiria a uma pessoa conciliar o sono naquelas condições.
Mais adiante, viu reproduções do que seriam os sanitários: uma placa de cimento estreita e comprida, quarenta centímetros de largura e alguns metros de extensão. Situada mais ou menos à altura de um vaso sanitário normal, era vazada por buracos, um ao lado do outro, em toda a sua extensão.
Ela imaginou a condição emocional de um ser humano obrigado a evacuar e urinar em público, ao lado de dezenas de outros que faziam a mesma coisa — acrescendo-se o fato de que as epidemias de tifo e outras diarreias eram comuns naquele ambiente.
Teve náuseas. Sentiu, claramente, o miasma provocado pelas dejeções simultâneas da fileira de pessoas ali sentadas, evacuando juntas, em uma macabra socialização da degradação.
Saíram do dormitório e continuaram até um local transformado em memorial da guerra, com grandes monumentos de pedras escuras, denominado Pomnik w Birkenau.
Mais adiante, surgiram ruínas de construções. Ela se aproximou. Umas eram erguidas abaixo do nível do chão e com formatos variados; outras mostravam pequenas chaminés com tampas de cimento. Ela se lembrou de filmes sobre a Segunda Guerra e de soldados alemães com máscaras faciais contra gases, jogando latas do temível Zyklon B pelas chaminés.
Nádia havia lido que o Zyklon B, era um pesticida que liberava o gás cianeto. Ao se aproximar daquelas chaminés, sentiu o odor de amêndoas amargas a penetrar-lhe as narinas e começou a soluçar. As pernas trêmulas já não permitiam que ela caminhasse. César a amparou.
Conversa
Deixe o primeiro comentário