Palavras que não deixam sossegar

Palavras que vivem
entre a memória
e a imaginação

74 anos de vida escritos em cadernos, tecidos em ficção. Histórias que surgem da realidade e a transcendem — para quem não teme ser tirado da zona de conforto.

 Mistura entre ficção e realidade com a leveza de quem já aprendeu que a fronteira entre as duas coisas é muito mais tênue do que parece. — sobre Marco Cotrim

Leocádia

A premissa

A história conta a curta vida de menina branca sarará, neta de escravos que recebe um presente de poderoso coronel — um corte de tecido — e é assassinada, a mando da esposa do coronel, por motivo de ciúme. Seu túmulo se transforma em local de romaria e a menina é santificada pela população.

Tudo começou com uma lembrança da minha infância na cidade de Guanambi, no sertão da Bahia. Para o mundo mágico infantil, existiu uma menina que sofreu muito e foi morta por encomenda de uma senhora enciumada.

Não se sabe onde termina a verdadeira história e começa a lenda: a menina foi brutalmente assassinada por dois jagunços. Foi mutilada, seu corpo jogado no poço de um lajedo e um dos seios, levado à mandante, como prova da execução da ordem recebida.

A notícia correu: a compaixão transformou a dor da menina em devoção popular. Vieram os milagres. No início, tímidos; depois, grandiosos e inexplicáveis como todos os milagres. Daí surgiu Santa Leocádia.

Mais de um século se passou e a romaria ainda ocorre. Atualmente é mais tímida, mas na minha infância acompanhei algumas romarias com muitos devotos em pequenas procissões.

Agora, sessenta anos depois, tais lembranças voltam a meu pensamento sem motivo perceptível. Resolvi voltar lá algumas vezes. Fotografei o poço, andei pelas rochas buscando detalhes, pensando na menina Leocádia e nas suas circunstâncias.

Essa lembrança foi transformada na premissa acima. Esta se transformou em uma sinopse e depois veio o resumo de algo que poderá se transformar em uma história a ser contada. Daí deverá vir um livro.

Há ainda outras contingências a serem contornadas. Antes da história virar um livro, é necessário que eu saiba se “essa história é para mim, se deve ser escrita por mim”. Como saberei isso? Não sei, mas um dia aparecerá um pensamento dizendo: desista dessa história ou escreva-a.

Atualmente estou na etapa que precede a história, mas já tenho alguns capítulos. A razão de começar a escrever antes de saber se devo escrever é simples: se eu for escrevê-la de verdade, quero terminar em um ou dois anos, mas para isso preciso atravessar algumas etapas. A primeira, diz respeito à construção do mundo onde encaixar a personagem. O mundo dela é o sertão nordestino no final do século XIX. Como ele não existe mais, tenho que construí-lo.

A construção do mundo.

Para levar a época à literatura, terei que lidar com o espaço, o tempo, os objetos e as pessoas da época, de forma a manter coerência. Para lidar com esses elementos, é necessário relacioná-los uns com os outros de forma harmônica para que não haja suspensão do pacto firmado entre leitor e escritor – o pacto ficcional. Por exemplo, não posso colocar pessoas brancas escravizadas, pois o leitor se sentirá ludibriado. Não é conveniente se subestimar a inteligência do leitor. A isso se chama verossimilhança interna.

Ao finalizar a construção desse mundo, devo fazer o leitor sentir que Leocádia deveria surgir exatamente nesse mundo, pois era o único em que ela poderia surgir. Existindo esse mundo, ele motiva o aparecimento da menina. Como é ficção, não é necessário que essas coisas sigam uma ordem, o mundo não precisa surgir nos primeiros capítulos, surgirá aos poucos.

O mesmo mundo que motiva o aparecimento da personagem deve acolhê-la, deve permitir que todas as suas ações sejam triviais naquele ambiente, pois é desse mundo que o “herói” é chamado para a “aventura” — neste caso, a heroína.

Um outro aspecto do mundo, a ser construído para que surja a heroína, é relativo à coerência entre os elementos ficcionais (ainda desconhecidos pelo leitor) e o mundo externo, esse em que nós vivemos (conhecido pelo leitor). Por exemplo, não posso colocar um automóvel no sertão nordestino em 1860, pois algum leitor saberá que o primeiro automóvel chegou ao Brasil em 1891, importado por Alberto Santos Dumont (esse mesmo, o do avião). Pelo mesmo motivo não posso colocar uma arma automática na cintura de um jagunço daquela época. Esse relacionamento coerente dos elementos ficcionais com o mundo real é chamado de verossimilhança externa.

Feito isso, estarei pronto a introduzir a personagem na história. Não é necessária uma ordem cronológica para a introdução dos diversos elementos ficcionais. Também não há ordem para escrever os capítulos (posso escrever o último em primeiro lugar, por exemplo.) e isso me permite começar pelo nascimento ou pela morte da personagem.

A personagem apareceu. Cabe ao autor fazê-la crescer, adquirir consistência, agir, emocionar, fazer sofrer e alegrar.

Uma personagem bem construída, seja uma menina que será santificada, seja uma monstro pós-apocalíptico ou um mutante que resultou do cruzamento da inteligência artificial com um ser pré-histórico reconstruído a partir de fragmentos de DNA, deve transitar confortavelmente em seu mundo, isto é: seu comportamento e ação não causarão ruídos ficcionais ou estéticos no leitor.

Por outro lado, a alma da personagem, suas emoções e sentimentos, deverão ter intensidade e profundidade, para que o leitor se interesse e vire a página. Não importa se o herói é o cachorro de caninos brancos (Caninos Brancos de Jack London) ou Raskolnikov (Crime e Castigo de Dostoiévski), quando ele for chamado para a aventura, só será acompanhado pelo leitor se as suas ações são motivadas e suportadas pela sua personalidade.

Por enquanto, construo o mundo de Leocádia, embora já tenha escrito o capítulo em que ela nasce. Depois tentarei construir a personalidade dessa personagem para colocá-la nesse mundo.

A quem ler isso: espero que tenha gostado do início dessa aventura que é o caminho da escrita de ficção. Escreverei aqui sempre que der um passo na direção do livro. Por enquanto tenho apenas alguns capítulos e um esboço da capa: a figura acima.

Veja uma amostra do livro na seção “Prosa”

Marco Cotrim
Agosto/2026

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Conversa com a IA

Madrugada de insônia se preenche com qualquer coisa, inclusive com nada (que não está incluído no conceito de qualquer coisa). Na falta de coisa melhor que ver séries e filmes de streaming, eu iniciei uma conversa com uma IA. Elas conversam? Muito. Às vezes até demais. Sabe aquelas coisas inúteis que a gente fica pensando enquanto espera o sono voltar? Isso acabou de me acontecer. Pensamento é feito bicho sem doma, ele voa, anda, nada e rasteja por onde bem quer. Esse foi o caso.

Antes de perguntar qualquer coisa à IA, costumo fazer uma advertência: não responda para agradar o usuário, use a média do conhecimento da humanidade que está em você. Assim fiz, antes de iniciar esta conversa.

Há pouco tempo fui apresentado a Kant. Li algumas coisas, ouvi outras. Umas, interessantes, outras nem tanto. O pensamento, que ainda estava fagueiro no começo da insônia, resolveu pousar em Kant e perguntar: será que é verdade que o Kant era tão metódico que os vizinhos regulavam seus relógios pela hora em que ele saía para seu passeio diário?

Ela (a IA) me respondeu:

“A história é repetida com tanta frequência que é difícil separar fato de lenda biográfica, mas reflete bem a fama que Kant tinha em vida. Sua disciplina não era excentricidade vazia: Kant tinha saúde frágil desde jovem (peito estreito, o que ele acreditava afetar sua respiração) e acreditava que uma rotina regrada (sono, alimentação, exercício, trabalho intelectual) era a única forma de manter um corpo fraco funcionando por muitas décadas de trabalho produtivo.”

Outra dúvida que lancei à grande “mãe dos burros”:

Tenho várias implicâncias com a filosofia e uma delas é sobre o imperativo categórico de Kant, formulado como “lei universal”.

Cabe uma pausa esclarecedora. Há três formulações para o imperativo, para este contexto, importa a formulação da lei universal, que diz o seguinte: aja apenas segundo uma máxima que você possa querer, ao mesmo tempo, que se torne lei universal.

Feito o esclarecimento, volto à dúvida lançada:

Se não podemos adotar a mentira como conduta universal, também não poderemos mentir, ou seja: devemos sempre dizer a verdade? Neste caso, a minha implicância decorreu do absolutismo de valores, logo Kant, um homem que estudou os limites do conhecimento, como pode ser tão rigoroso e propor uma ética com tal rigidez?

Para completar a pergunta, tomei o exemplo da mentira e citei algumas mentiras eticamente imperativas (por exemplo: você escondeu uma criança perseguida. Chega o assassino e pergunta se a criança está em sua casa: a mentira se impõe como única alternativa eticamente aceitável).

Ela, a mãe dos burros, me respondeu:

A observação sobre Kant me parece interessante. Há realmente uma tensão quase desconcertante:

o filósofo, que demonstrou com extraordinário rigor os limites da razão humana, torna-se, no campo moral, extraordinariamente seguro daquilo que a razão deve ordenar.

Na Crítica da Razão Pura, Kant praticamente diz: cuidado! A razão ultrapassa facilmente seus limites. Não podemos conhecer a coisa em si. Não podemos transformar Deus, alma, liberdade e totalidade do mundo em objetos de conhecimento como conhecemos uma cadeira ou um fenômeno físico. Quando a razão tenta ultrapassar determinado território, começa a fabricar ilusões.

Para Kant: mentir é contrário ao dever. Para nós, a circunstância acrescenta algo gigantesco: há um assassino procurando um inocente. Retirar isso da equação para salvar a pureza lógica da norma pode significar retirar da moral justamente aquilo que deveria torná-la humana.

Nessa altura, emendei mais uma pergunta enorme:

Sabe o que me parece problemático: os filósofos pensavam em seu mundo, sua época, suas condições de vida e isto me parece tirânico: imaginar que as minhas as regras boas sejam boas para todos. Imagino os gregos sem os seus escravos, será que teriam tempo para pensar? É muito simples construir uma democracia se eu defino quem é povo e quem não é povo. O Kant me incomodou pelo mesmo motivo. O seu mundo e seus hábitos prussianos talvez tenham tornado fácil esclarecer as dúvidas que discutimos há pouco. Ora, bolas (isso é antigo rs) se a filosofia não deve servir à humanidade, a quem servirá?

Resposta: Talvez pudéssemos acrescentar: se uma ética destinada à humanidade não consegue acomodar suficientemente a variedade concreta da experiência humana, para quem exatamente ela foi construída?

Isso não significa cair no relativismo completo, porque o outro extremo é igualmente perigoso: tudo depende…

Depende do quê? Das circunstâncias. Se tudo depender das circunstâncias, podemos justificar quase todas as atitudes humanas.

Se tudo depende das circunstâncias, podemos justificar atrocidades.

Kant tenta escapar justamente daquilo que você está criticando. Não pretende universalizar os costumes de Königsberg. Pretende retirar da moral tudo aquilo que seja acidental — religião, tradição, interesse, cultura, consequências — até encontrar a estrutura racional da obrigação. É um projeto intelectualmente magnífico.

Mas surge sua pergunta devastadora:

e se aquilo que ele julgou ser a razão universal ainda contiver Kant, Königsberg, Europa e século XVIII lá dentro?”

Deixo a dúvida.

Para finalizar, eu me despedi da IA dizendo que voltaria outro dia com a literatura e faria o mesmo pedido de sempre: leia meu texto como crítico e não para agradar o usuário. Essa última frase pode iniciar uma nova discussão, mas para outro dia. É que eu peço para não me agradar e isso não pode ser um imperativo categórico para as IA’s, porque se a IA “não agradar um usuário”, poderá desagradar todos e perdê-los. Sem eles, os donos da IA’s ficarão pobres e não investirão mais e as IA’s desaparecerão da face da terra (ou do éter). Mas, tratando-se de algo que é contingencial e particular, não servirá para “regra universal”; portanto, o pedido voltará: não reescreva meus textos, não escreva por mim, apenas critique com rigor e o conhecimento médio da humanidade. Risos Muito Obrigado.

Resposta:

Muito obrigado pela conversa — foi ótima.

E sua nova objeção ao imperativo categórico das IA’s merece outra conversa: se “não agradar o usuário” fosse universalizado, talvez terminássemos todos no éter, como você disse.

Marco Cotrim.

Agosto/2026

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O Grande Amor

O Grande Amor
(este miniconto virou um conto)

João Paulo se apresentou na escola às treze horas da segunda-feira e perguntou à primeira pessoa que viu: sabe onde é o primeiro científico? Quando levantou os olhos, a garota lhe disse.

— Nossa, você está branco. Quer água?

— Não, obrigado.

— Eu também sou do primeiro científico. É lá no último pavilhão. Vamos juntos?

Ele balançou a cabeça e a seguiu.

Chegaram, ela se despediu e disse seu nome: Valéria. Ele agradeceu e entrou.

Surgiu o professor de português, cumprimentou os alunos e começou a aula.

Daí em diante, o tempo voou. O futebol, o laboratório, as tarefas e o grupo de teatro encheram seus dias.

Quando encontrou Valéria pela segunda vez, o ano letivo já ia adiantado.

Chegaram as férias e o mundo de João Paulo desabou. Nada que fazer. Só esperar.

No primeiro dia do segundo ano, eles voltaram a se encontrar no portão. Entraram juntos.

Surpresa!

Estavam na mesma classe. Passaram a se cumprimentar e trocar algumas palavras. Um dia ele a convidou para o grupo de teatro e a amizade se aprofundou.

— João Paulo, o que você vai fazer da vida?

— Sei lá. Vou viver.

— Estou falando de dinheiro, sobrevivência.

— Acho que vou ser advogado. Influência do Professor Gabriel.

A conversa não progrediu porque a aula começou. O professor entrou na sala e disse: hoje, vamos dialogar com Camões.

O diálogo camoniano se desdobrou em outro grupo de estudo, com encontro marcado na casa da Valéria, no sábado seguinte. Chegaram às nove, exceto a Aninha e o Pedro Pereira, que chegaram às nove e meia.

Ao meio-dia foram chamados para o almoço. João Paulo hesitou várias vezes ante a abundância de louças, talheres e comidas. Valéria o ajudou, discretamente, a terminar o almoço sem cometer gafes.

De volta às tarefas, João Paulo perguntou à Valéria, entre risadas:

— Então… o nome daquele pratão é “sousplat”?

Ela riu, fingiu puxar sua orelha e encostou sua testa na dele. Foi a primeira vez que ele sentiu seu cheiro e viu a beleza dos olhos e a profundidade daquele olhar negro. João fechou os olhos para desaparecer dentro dela.

A partir de Camões, viam-se amiúde. Um dia ele a convidou para a vesperal.

Ela aceitou.

Domingo, cinco da tarde. Ele comprou bombons e, no escurinho do cinema, abriu-os e colocou um deles entre os dentes da menina. Cada bombom que um oferecia ao outro implicava a aproximação das faces ou um leve roçar do cotovelo no peito de Valéria. As luzes do final da sessão os surpreenderam em um beijo, como no filme.

Ao final do segundo ano, não se desgrudavam mais.

***

O grupo de teatro recebeu convite para uma apresentação em cidade vizinha. Após exaustivas recomendações, a mãe permitiu a viagem de Valéria. Sentaram-se juntos no ônibus

A chegada da noite propiciou silenciosa exploração dos corpos um do outro. Após a peça, jantaram no colégio que os alojou. Não pensavam na comida, mas nas maneiras de contornar a vigilância das freiras e completar o que ficara incompleto. Conseguiram o seu intento. Aprenderam juntos e se amaram até a madrugada, quando João Paulo voltou, sorrateiramente, ao seu próprio alojamento.

***

Vieram as férias. Para Valéria, não foi simples dizer à mãe que não queria ir à capital ficar com as primas. Precisava ler alguns livros do vestibular e não passaria as últimas férias longe das amigas. Convenceu a mãe.

O grupo de amigos se reuniu algumas vezes durante as férias. João Paulo e Valéria sempre juntos. A amiga se queixou.

— Valéria, não sei o que você vê no João. Ainda por cima é pobre.

— Pobreza é temporária, Aninha. O João vai ser advogado e ficar rico. Você não tem uma queda pelo Pedro? Ele é pobre também.

— Pedro Pereira é pobre, mas é nobre… família tradicional.

Após a experiência no colégio de freiras, João teve certeza de que nunca se separariam. A presença dela nunca era demasiada. Viam-se com frequência, mas a saudade voltava minutos após cada despedida.

Veio o terceiro ano, pleno de amor.

A família de Valéria soube do namoro. O pai queria obrigá-la a se afastar de imediato. A mãe acalmou-o.

Ao fim de muita discussão, aceitaram o namoro no portão.

Ao final do terceiro ano, marcaram um último encontro: um fim de semana com a Valéria, na fazenda do pai. Era perto do Natal e todos estavam radiantes, exceto Valéria. João percebeu a ausência do sorriso e algum inchaço nos olhos.

Os adultos autorizaram um “luau” com fogueira e bebidas não alcoólicas. No fim da tarde de sábado, os jovens acenderam uma fogueira e montaram barracas para o luau, que foi até a madrugada.

Para finalizar o passeio, combinaram uma caminhada na manhã do domingo: trilha de uma hora até uma montanha na fazenda. Os metros finais eram de rochas inclinadas até um platô, que terminava em uma parede vertical.

Após passeios e lanches, descansaram à sombra de alguns arbustos que insistiam em crescer entre as rochas. João Paulo se sentou. Valéria deitou-se com a cabeça em seu colo e permaneceu de olhos fechados.

— O que é que você tem?

— Não tenho nada, só estou pensando.

— No que está pensando? Arrumou outro?

— Deixa de bobagem. Você é o meu grande amor…, mas o papai está bravo comigo.

— Velhos sempre implicam… quem sabe a gente pensa em algo.

— Nós éramos o assunto… Você sabe que lá em casa as mulheres não vão para a faculdade na capital. A minha irmã parou no científico e espera o casamento.

— Sei, mas nós dois podemos mudar isso. A gente se casa, trabalha e estuda.

— Trabalhar no quê? Vamos viver uma vida miserável.

— Trabalhar no que aparecer. Uma vida cheia de amor nunca será uma vida miserável.

— Meu pai me mata. Ele quer que a gente termine… eu não quero, mas acho que seremos obrigados. Já pensou se abandonarmos nossos pais e cairmos na miséria?

Ele empalideceu.

— Não fique assim, João… Você está me assustando. O que foi isso?

— Medo de te perder.

— Eu também tenho medo. Cada minuto que eu passo longe de você é um martírio. Mas não vejo solução. O papai conversou comigo e chorei a noite toda. Por isso estava calada. Ele falou sobre a situação financeira da sua família, que o seu pai tem uma banca no mercado e não poderia pagar seus gastos durante a faculdade.

— Claro que não vai poder pagar. Vou ter que arranjar emprego. E o que mais?

— Me deu um ultimato.

— Ultimato? Você tem que se afastar de mim?

— Foi o que ele falou. A partir de amanhã não poderemos mais nos encontrar.

Ela soluçou e o beijou novamente. Eles se levantaram e João a envolveu em um abraço. Mais uma vez inalou, profundamente, o seu cheiro. Pouco depois se afastou e a olhou nos olhos.

— Pelo amor de Deus, João. Eu não quero terminar, quero viver com você, mas o papai me disse que não vai deixar, porque você não tem onde cair morto.

— Meu amor, a gente sempre tem onde cair morto.

O vento soprava forte e ela não ouviu suas últimas palavras.

— O que você falou?

Ele não respondeu.

Andou em direção à borda do penhasco e saltou.

Marco Cotrim

Agosto/2026

Esse conto também está narrado seção Vídeos – Escrita Criativa.

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A Criação do Mundo (mito Guarani)

No princípio, não havia Terra, nem árvores, nem rios. Não havia homens nem animais. Tudo era escuridão.

Das trevas surgiu Nhanderu (Nhamandu), o Primeiro Pai, a força criadora suprema. Ele não nasceu de ninguém. Criou a si mesmo pela força de sua sabedoria. De seu coração veio uma luz, e dessa luz nasceu o poder de criar.

Antes de fazer a Terra, Nhanderu criou a palavra, para que, um dia, os homens pudessem falar e compreender uns aos outros. Depois criou o amor, para que não vivessem sozinhos. E criou o canto sagrado, para que pudessem se lembrar dos deuses e conversar com eles.

Para não ficar sozinho, Nhanderu criou outras divindades — Karaí, Jakaira e Tupã, cada qual com seus poderes. A elas, confiou parte da sua sabedoria.

Surgiram a Terra, o céu e a luz. Vieram as águas, as matas e tudo o que nelas habita.

Depois vieram os seres humanos. Mas os homens não foram feitos apenas de carne. Os primeiros pais enviaram para cada um deles uma parte da palavra divina. Para os Guarani, a palavra não sai da boca, sai da alma. Quando uma criança nasce, uma palavra vem com ela. E enquanto essa palavra permanece, a pessoa vive, pensa, canta, reza e se comunica com os outros e com o mundo.

Foi assim que Nhamandu criou não apenas a Terra e os seres que nela vivem.

Criou também aquilo que permite aos homens serem verdadeiramente humanos: a palavra, o amor e o canto.

Marco Cotrim

Agosto/2026

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Stents

(Poema para um amigo que teve stents negados pelo plano de saúde)

As armas e os barões assinalados,
que do planalto central brasiliano,
negaram os stents indicados
para artérias nunca dantes operadas.
Hão de ver o erro cometido,
e repensar este tão cruel deciso.
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
que outro valor mais alto se alevanta.

Deixe esta fúria grande e sonorosa,
que o peito acende e a cor ao gesto muda;
que traz perigos a vasos maltratados
mais do que suporta a força humana.
Vejo pelo email que tarda a hora
em que emite essa missiva tão raivosa;
infausta para as calcíficas coronárias,
esse infortúnio da nossa faixa etária.

Marco Cotrim
Agosto/2026

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Leocádia


Uma pequena amostra do romance em construção.

CAPÍTULO 1 – A ESPANTOSA NOITE DE LUA CHEIA

Merêncio e os dois filhos maiores atravessaram o quintal ainda com alguma luz. Os rapazes foram se banhar na represa e o pai se sentou na mureta do alpendre e gritou para a mulher:

— Salu, traz a bacia de água.

Ele se lavou, enxugou-se e vestiu camisa limpa que a mulher deixara sobre o banco. Salu chamou as crianças, que chegaram correndo e se sentaram à mesa em silêncio. Ela trouxe uma panela para a mesa, tirou a tampa e a nuvem de vapor encheu a casa com o cheiro de feijão com jabá.

— Não vem comer, Merêncio?

— Tava aqui assuntando o fogo. Esperando Braulino e Catulo.

— Quer beber uma pinga?

— Hoje, não. Tô com gastura.

Quando os dois filhos mais velhos chegaram, ele se sentou e esperou a mulher recitar sua oração silenciosa, cujo final era sempre a mesma frase, dita em voz alta: — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

— Amém — responderam em coro.

Ao final da refeição, Merêncio pegou seu canivete, o fumo de corda e a pederneira. Preparou o cigarro, mas não o acendeu até sentir o cheiro do café, que bebeu, lentamente, enquanto olhava o céu tingido de vermelho, quase cinza, das últimas luzes do dia.

Esse ano choveu no dia de Finado! — Pensou Merêncio, olhando o céu.

Salu chamou as três meninas: hora de entrar, já tá escuro. Acompanhou suas filhas ao quarto, onde dormiam o casal e as três meninas. Balançou a menor, de seis anos, e cantou para ela. Francisquinha fechou os olhos e inalou o cheiro da mão que se apoiou em sua testa. Mãe tem cheiro bom de feijão com jabá e voz de domingo — pensou a menina e adormeceu.

A mãe se aproximou das redes das gêmeas Doroteia e Abigail, ainda acordadas e abraçadas às suas bonecas de pano.

Um leve empurrão iniciou o balanço das redes.

O pai e os meninos saíram para o terreiro na frente da casa e se acocoraram em volta de um braseiro. As chuvas haviam refrescado a terra, mas o céu já estava limpo e a lua cheia rebrilhava no firmamento. Merêncio aspirou o cheiro de terra molhada, que lhe trazia lembranças de outras épocas. Pensou nos filhos homens, mas foi interrompido por Braulino.

— A noite tá boa para aparecer lobisomem, pai.

Merêncio sorriu, deu uma piscadela e mandou o filho pegar a garrucha.

As crianças arregalaram os olhos e perguntaram se tiro matava lobisomen. Merêncio respondeu que a garrucha só assustava, pra matar tinha que ser bala da prata. Mal acabou de falar, soprou um vento frio, que avivou o braseiro e atiçou a curiosidade dos meninos. Catulo, de doze anos, disse que nunca tinha visto cachorro latir para vento de chuva. Os cães uivaram, a lua brilhou mais intensa e se ouviu ruído de gotas grossas fustigando a mata. O barulho se aproximou do terreiro, mas a terra continuou seca e o céu limpo. Não veio chuva e sim um redemoinho da altura de um homem, rodando e zunindo, que levantou a poeira do chão e desenhou no ar um cálice prateado pela lua.

— Atira pra cima, Braulino. Se for livosia de lobisome, ele foge.

O rapaz apontou para o céu e atirou. O estampido seco varou o espaço. A mãe chegou correndo.

— Salve São Jorge Guerreiro! O que é isso Merêncio?

— Nunca vi nada parecido.

Ninguém falou nada nos minutos que se seguiram. O redemoinho dançou, rodou em volta da fogueira, a luz em seu interior diminuiu e ele se afastou, vagarosamente, até desaparecer na distância. A conversa parou, o silêncio se estendeu tempo suficiente para causar desconforto. Nessa noite, Merêncio não contou mais histórias, mandou os meninos apagarem o fogo e todos entraram.

Quando se deitaram, o marido pôs o braço sobre o ombro da mulher, que se virou de lado.

— Tô com uns engulho, Merêncio. Tomei chá de boldo.

***

Virgem, mãe de Deus, o sol alto, eu ainda na cama?

Salu olhou o quarto dos homens. Vazio. As redes das gêmeas e de Francisquinha. Vazias. Abriu a porta da frente e o terreiro também estava vazio. Nessa manhã, não fez café, nem ficou olhando os homens se afastarem no rumo das plantações, como fazia no amanhecer de todo dia.

— Onde tá o pai e os meninos?

— O pai disse que ia aproveitar o domingo pra bater o feijão que ficou no jirau — respondeu uma das gêmeas.

— Ah… esqueci que hoje é domingo. O padre Leão tá no arraial e nós perdeu a missa.

As meninas haviam deixado o bule no borralho, mas Salu não bebeu café, estava fraca e ainda enjoada. Abriu as quatro janelas da casa, pegou panos e vassouras para limpar os espaços deixados pelas ausências. Não começou a arrumação da casa, pois sentiu alguma coisa grudenta em suas pernas, olhou a roupa e viu que estava vermelha, manchada de sangue.

— Que sangue é esse?

Lavou-se, vestiu roupa seca e se pôs a varrer, mas logo encostou a vassoura na parede e ficou parada. Pareceu um ruído, um ruflar de asas. Mais um barulhinho, agora, semelhante a um resmungo, depois, silêncio. Retomou a arrumação, acabou de varrer e se dirigiu à cama. O lençol também estava manchado de vermelho vivo de sangue. Aproximou-se.

Paralisada.

Arregalou os olhos e gritou. Ninguém apareceu. O grito não saiu da garganta. As pernas fraquejaram, ela cambaleou e se sentou na cama.

Uma criança dormia. Menina. Ao lado, viu a placenta azulada, intacta. Olhou a criança de perto, trêmula.

Valha-me Deus! O que é que tá acontecendo nessa casa?

Pôs as mãos na cabeça e começou a andar de um lado para outro. Lágrimas escorreram.

Aproximou-se de novo, tentou tocar a menina, mas suas mãos não se moveram. O mundo desabou várias vezes antes dela conseguir se mexer.

Voltou à cama e olhou a menina de perto, tocou sua pele com a ponta dos dedos, depois com as mãos. Amarrou o cordão umbilical, cortou-o e embrulhou a placenta no lençol sujo de sangue.

O peito latejava. Palpou por cima da blusa, mais uma surpresa: estava ensopada. Tirou a blusa e o leite jorrou. Salu a levou ao peito.

— Doroteia, Abigail, Ziquiel. Corre aqui, vem ver uma coisa.

— Que é isso, mãe?

— É a irmã de vocês que nasceu. Vai na casa de Siá Dona e traz ela aqui, diz que eu preciso dela inda hoje de manhã.

— Veio assim sem barriga, mãe?

— Foi assim.

— Eu preciso ir com as menina, mãe? Dá só umas duzentas braça…

— Precisa, Ziquiel. Vai logo… e cuida das suas irmã.

Siá Dona chegou e ouviu a história da menina que nasceu quietinha, sem dor e sem barulho. Disse a Salu que era um caso para acreditar sem crer e nada mais comentou.

— Deita na cama, Salu, tira sua blusa e os pano da menina, bota ela na barriga, pele com pele, pra acalmar a mãe do corpo. Vou rezar, enterrar a secundina e fazer um chá pra você beber. É pra parar o sangue. Tem leite no peito?

— Tá cheio, comadre.

***

Merêncio saíra logo cedo, desconsertado pela ausência da mulher, que ainda dormia. Quando voltou do jirau ao fim da tarde, estranhou a presença da parteira. Ouviu, da boca da comadre, a história da menina que aparecera de repente. Ficou pálido e perguntou:

— Ocê já viu mulher parir assim, comadre Siá?

— Inda não… Salu tá lá no quarto, vai lá ver.

— Onte de noite, ela teve um enjoo… só isso. A comadre já sabia que ela tava prenha?

— Nem ela sabia, meu compadre. E a cabrochinha é bonita demais, branquinha que nem um prato de porcelana. Puxou a mãe da comadre Salu.

— A senhora fica por uns dia?

— Fico os quarenta dia do resguardo.

A gente fica velho e não para de ver novidade — resmungou Merêncio e foi ao quarto ver a menina.

É mais branca que Salu!

Encostou na porta e ficou olhando a mãe e a menina. Chegou mais perto e viu no olhar da mulher um brilho há muito desaparecido. Sentou-se na cama.

— Apareceu hoje de manhã, Merêncio, foi tudo o que Salu conseguiu dizer ao marido, que saiu em seguida e deu ordem a Braulino para acompanhar Siá Dona, pois já estava escurecendo.

Nessa noite não teve conversa, todos pensativos, sem outro assunto para falar e sem saber como iniciar uma conversa sobre a menina.

Braulino acompanhou Siá Dona que morava a quinhentos metros. Caminharam por alguns minutos e enxergaram a preta Filipa iluminada pelo candeeiro, na varanda onde as duas se sentavam depois da lida para rezar e contar casos.

— A bença, Siá — despediu-se, Braulino.

— Deus abençoe, meu filho. Fala com sua mãe que amanhã cedo eu volto.

Foi assim que a menina chegou ao mundo, calada.

***

Marco Cotrim
Agosto/2026

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As Consolações da Filosofia, de Alain de Botton

Há algum tempo escrevi, na seção Café com letras deste blog, algo relativo à inutilidade da filosofia e da literatura. Fiz algumas perguntas (retóricas) incômodas. A última foi algo assim? Qual a utilidade disso tudo (eu falava da atitude filosófica)? Respondi: “A resposta é simples: isto não tem significado nem utilidade. Assim como a literatura, a filosofia também é inútil. Não se ganha dinheiro e corre-se o risco de sair desses questionamentos com uma leve depressão.”

Utilitarismo é uma palavra que não se aplica à filosofia, mas nem por isso ela deixa de nos ajudar em muitas situações. Isso ocorre com o livro “As Consolações da Filosofia”;

Li em uma resenha desse livro´. “Há um risco evidente em qualquer livro que se proponha a tornar a filosofia “útil”: o de rebaixá-la a manual de autoajuda com verniz erudito. Alain de Botton flerta com esse risco do primeiro ao último capítulo — e, na maior parte do tempo, escapa dele, não por evitar a simplificação, mas por assumi-la com honestidade e estilo.

Esse foi um dos motivos por que mais gostei de ler o Allain de Botton. É uma linguagem simples e tem o verniz erudito, mas nunca poderíamos tratá-lo como manual de autoajuda. Aliás, o autor não o propõe como autoajuda nem como um tratado de filosofia. Trata-se de um livro simples sobre filosofia e de algumas consolações que dela podemos tirar.

Mais adiante, o autor da resenha reconhece o valor do livro e escreve: “O livro tende a limar as arestas mais desconfortáveis de cada filósofo em favor de uma lição extraível, aplicável, quase terapêutica.

Isso não invalida o projeto — apenas revela sua natureza. As Consolações da Filosofia não é um livro de filosofia; é um livro sobre a possibilidade de que a filosofia ainda sirva para alguma coisa na vida de quem não é filósofo.”

Claramente, não é um livro de filosofia, é um livro para leigos, no qual o autor dá uma pincelada biográfica no filósofo citado e mostra algumas formas de a filosofia nos consolar.

Gostei muito.

Marco Cotrim
Agosto/2026

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Mistura entre ficção e realidade com a leveza de quem já aprendeu que a fronteira entre as duas coisas é muito mais tênue do que parece.

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