A premissa
A história conta a curta vida de menina branca sarará, neta de escravos que recebe um presente de poderoso coronel — um corte de tecido — e é assassinada, a mando da esposa do coronel, por motivo de ciúme. Seu túmulo se transforma em local de romaria e a menina é santificada pela população.
Tudo começou com uma lembrança da minha infância na cidade de Guanambi, no sertão da Bahia. Para o mundo mágico infantil, existiu uma menina que sofreu muito e foi morta por encomenda de uma senhora enciumada.
Não se sabe onde termina a verdadeira história e começa a lenda: a menina foi brutalmente assassinada por dois jagunços. Foi mutilada, seu corpo jogado no poço de um lajedo e um dos seios, levado à mandante, como prova da execução da ordem recebida.
A notícia correu: a compaixão transformou a dor da menina em devoção popular. Vieram os milagres. No início, tímidos; depois, grandiosos e inexplicáveis como todos os milagres. Daí surgiu Santa Leocádia.
Mais de um século se passou e a romaria ainda ocorre. Atualmente é mais tímida, mas na minha infância acompanhei algumas romarias com muitos devotos em pequenas procissões.
Agora, sessenta anos depois, tais lembranças voltam a meu pensamento sem motivo perceptível. Resolvi voltar lá algumas vezes. Fotografei o poço, andei pelas rochas buscando detalhes, pensando na menina Leocádia e nas suas circunstâncias.
Essa lembrança foi transformada na premissa acima. Esta se transformou em uma sinopse e depois veio o resumo de algo que poderá se transformar em uma história a ser contada. Daí deverá vir um livro.
Há ainda outras contingências a serem contornadas. Antes da história virar um livro, é necessário que eu saiba se “essa história é para mim, se deve ser escrita por mim”. Como saberei isso? Não sei, mas um dia aparecerá um pensamento dizendo: desista dessa história ou escreva-a.
Atualmente estou na etapa que precede a história, mas já tenho alguns capítulos. A razão de começar a escrever antes de saber se devo escrever é simples: se eu for escrevê-la de verdade, quero terminar em um ou dois anos, mas para isso preciso atravessar algumas etapas. A primeira, diz respeito à construção do mundo onde encaixar a personagem. O mundo dela é o sertão nordestino no final do século XIX. Como ele não existe mais, tenho que construí-lo.
A construção do mundo.
Para levar a época à literatura, terei que lidar com o espaço, o tempo, os objetos e as pessoas da época, de forma a manter coerência. Para lidar com esses elementos, é necessário relacioná-los uns com os outros de forma harmônica para que não haja suspensão do pacto firmado entre leitor e escritor – o pacto ficcional. Por exemplo, não posso colocar pessoas brancas escravizadas, pois o leitor se sentirá ludibriado. Não é conveniente se subestimar a inteligência do leitor. A isso se chama verossimilhança interna.
Ao finalizar a construção desse mundo, devo fazer o leitor sentir que Leocádia deveria surgir exatamente nesse mundo, pois era o único em que ela poderia surgir. Existindo esse mundo, ele motiva o aparecimento da menina. Como é ficção, não é necessário que essas coisas sigam uma ordem, o mundo não precisa surgir nos primeiros capítulos, surgirá aos poucos.
O mesmo mundo que motiva o aparecimento da personagem deve acolhê-la, deve permitir que todas as suas ações sejam triviais naquele ambiente, pois é desse mundo que o “herói” é chamado para a “aventura” — neste caso, a heroína.
Um outro aspecto do mundo, a ser construído para que surja a heroína, é relativo à coerência entre os elementos ficcionais (ainda desconhecidos pelo leitor) e o mundo externo, esse em que nós vivemos (conhecido pelo leitor). Por exemplo, não posso colocar um automóvel no sertão nordestino em 1860, pois algum leitor saberá que o primeiro automóvel chegou ao Brasil em 1891, importado por Alberto Santos Dumont (esse mesmo, o do avião). Pelo mesmo motivo não posso colocar uma arma automática na cintura de um jagunço daquela época. Esse relacionamento coerente dos elementos ficcionais com o mundo real é chamado de verossimilhança externa.
Feito isso, estarei pronto a introduzir a personagem na história. Não é necessária uma ordem cronológica para a introdução dos diversos elementos ficcionais. Também não há ordem para escrever os capítulos (posso escrever o último em primeiro lugar, por exemplo.) e isso me permite começar pelo nascimento ou pela morte da personagem.
A personagem apareceu. Cabe ao autor fazê-la crescer, adquirir consistência, agir, emocionar, fazer sofrer e alegrar.
Uma personagem bem construída, seja uma menina que será santificada, seja uma monstro pós-apocalíptico ou um mutante que resultou do cruzamento da inteligência artificial com um ser pré-histórico reconstruído a partir de fragmentos de DNA, deve transitar confortavelmente em seu mundo, isto é: seu comportamento e ação não causarão ruídos ficcionais ou estéticos no leitor.
Por outro lado, a alma da personagem, suas emoções e sentimentos, deverão ter intensidade e profundidade, para que o leitor se interesse e vire a página. Não importa se o herói é o cachorro de caninos brancos (Caninos Brancos de Jack London) ou Raskolnikov (Crime e Castigo de Dostoiévski), quando ele for chamado para a aventura, só será acompanhado pelo leitor se as suas ações são motivadas e suportadas pela sua personalidade.
Por enquanto, construo o mundo de Leocádia, embora já tenha escrito o capítulo em que ela nasce. Depois tentarei construir a personalidade dessa personagem para colocá-la nesse mundo.
A quem ler isso: espero que tenha gostado do início dessa aventura que é o caminho da escrita de ficção. Escreverei aqui sempre que der um passo na direção do livro. Por enquanto tenho apenas alguns capítulos e um esboço da capa: a figura acima.
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Marco Cotrim
Agosto/2026

Publicado em 31 de agosto de 2026
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