Prosa

O Flerte

3 min de leitura

Duas páginas do começo do meu livro “O Repórter”. Você pode lê-las como se fosse um conto com o título de “O Flerte”.

Enjoy!

Quantas confusões poderiam advir de um simples flerte… poderia ser casada e estar esperando o marido. Uma mulher bonita assim nunca estaria sozinha. Poderia ser divorciada, quem sabe? Talvez valesse a pena arriscar uma palavra, o que tinha a perder? Nada, pois já perdera quase tudo, inclusive o jeito com mulheres.

Esse medo de tudo e essa angústia diária o transformavam em espectador da própria existência: fracasso travestido de sobriedade. Tantas vezes pensara em se matar, que a ideia se tornou familiar. Entretanto, só havia pensado, nunca planejado: mais um fracasso.

— Senhor, posso servir a bebida?

Mais uma vez cruzou o olhar com a mulher que lhe chamara a atenção. Ela lhe retribuiu com o esboço de um sorriso. O que fazer? Logo vieram desculpas para não se levantar e apresentar-se à mulher. Estava ali a trabalho, viajaria no dia seguinte; mesmo que falasse com ela e iniciasse uma amizade, que futuro teria isso? Melhor não.

Ela saiu e ele inalou o perfume que pairou no ar, à sua passagem. Na retina de Fausto ficou registrada a imagem marcante daquela morena de olhos esverdeados, esguia e sensual. Quando o jantar chegou, empunhou o garfo e iniciou a refeição, repetindo rituais com os quais preenchia a cabeça nos muitos momentos de solidão. Tentou colocar os pensamentos em ordem, buscar um fio condutor para as suas futuras investigações: um presságio, uma fagulha qualquer, que lhe incendiasse a imaginação e reavivasse o tirocínio. Mas não conseguia tirar do pensamento a mulher que o impressionara minutos atrás. O que fazer para vê-la de novo?

As chances de um reencontro eram pequenas e de nada adiantaria se exasperar. Afinal, não era ele que sempre dizia aos três filhos jovens que as melhores coisas eram sempre aquelas que estavam à mão, e o resto era apenas probabilidade? Hora de seguir o próprio conselho.

Lembrou-se dos filhos e sorriu. Logo poderia encontrá-los e aguçar a curiosidade dos garotos com as suas histórias mirabolantes, uma mistura de realidade e ficção com que preenchia alegremente as horas que passavam juntos.

Voltou ao hotel e dormiu.

Na manhã seguinte, lembrou-se da mulher no restaurante. Sintoma grave! A primeira coisa de que se lembrava ao acordar; isso não era um bom sinal.

Hora de trabalhar! O avião sairia às cinco. Tinha que terminar a transcrição das entrevistas do dia anterior, além de dar alguns telefonemas, só então poderia ir para o aeroporto.

À uma da tarde, dirigiu-se ao mesmo restaurante onde jantara na noite anterior. Sentou-se à mesma mesa e pensou na mulher que o encantou. Quem seria? Teria outra chance de vê-la? O que fazer para saber quem era ela?

— Senhor, alguma coisa para beber?

— Só água, por favor.

Viu que o garçom era o mesmo da noite anterior.

— Senhor… conhece aquela moça que jantou aqui ontem, naquela mesa ali no fundo? Envergonhou-se com a infantilidade da pergunta.

— Sim, conheço, é uma cliente antiga, janta sempre aqui.

— Acompanhada?

— Sempre só.

— Obrigado e desculpe-me a curiosidade.

— Sem problema, uma mulher bonita sempre desperta alguma curiosidade.

Um abraço

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