Parece lógico que a ficção deve começar com uma boa história, mas… nem sempre é assim que as coisas funcionam. Há livros clássicos de autores renomados em que a história é pouca e, às vezes, rasa, mas são lidos por muita gente, durante muito tempo. O que os diferencia? Como podem escrever uma história quase sem reviravoltas, quase sem sofrimento para o herói, fugindo de todas as recomendações que ouvimos e lemos sobre o que é “uma boa história”?
Não tenho resposta para isso, mas pode-se especular sobre o assunto. Claro que certas regras mínimas devem ser seguidas por todos os que estudam a arte da escrita, embora existam alguns que escrevem “quase” sem regras e são lidos. Coloquei aspas na palavra quase, pois há algumas premissas das quais não podemos escapar para adentrar o mundo da escrita. A primeira delas é saber ler e escrever. Não basta isso, outras regras se sobrepõem: é necessário saber um mínimo de sintaxe, ter alguma criatividade etc. Entretanto, após assistir aulas do mestre Assis Brasil, aprendi que o “personagem” é o verdadeiro fio condutor da história. Ele nos falou sobre Macabéa — personagem de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector — e mostrou como a cena final (que poderia parecer inverossímil em mãos inexperientes) é exatamente o que deveria acontecer, não poderia ser de outra forma.
Transcrevo umas poucas palavras do livro Escrever Ficção, (Assis Brasil, Luiz Antonio. Escrever Ficção. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.):
“Clarice Lispector nos mostra que fatos aleatórios podem ser provocados
No final de A hora da estrela (1977), acontece um fato […]Nenhum dos meus alunos achou estranho, “afinal, ela só poderia terminar desse jeito”, ou: “ela provocava todas as tragédias”. Na prosa de Clarice, o acidente, portanto, deixa de ser uma casualidade para se transformar em algo natural, possível ou ainda mais: numa exigência da história. Depois de terminada a leitura, a sensação que fica, mesmo que inconsciente, é de que nada mais poderíamos esperar da personagem.”
Em outras palavras, o mestre quis dizer que mãos experientes constroem personagens verossímeis, deixam o impossível, “crível”. Para ilustrar a verossimilhança, gosto do seguinte exemplo: suponha que se resolva uma cena com a queda de um piano sobre o personagem, que passeava na Avenida Paulista. É possível? Claro que é, mas não é crível e provoca a ruptura do pacto ficcional (pacto fictício entre autor e leitor). Quando algo assim acontece, mesmo que seja um fato corriqueiro do jornal, surgem dúvidas sobre a credibilidade do fato. Se alguma coisa possível provoca a expressão — Que incrível! — acredito que tal fato ou ação não pode estar em uma história.
Volto a falar do personagem e da sua consistência como fio condutor da história. Já me perguntaram se me baseio em pessoas conhecidas e junto características de várias delas para criar um personagem. Geralmente respondo que isso não fica bom, pois, dificilmente, encontramos pessoas conhecidas ou não, que se adaptem às peripécias de uma história. Tento criar uma personagem de tal modo que, somente ela se adapta aos acontecimentos da história e torna “natural” todos os fatos que acontecem. Só poderia ter aquelas características físicas e psicológicas para que a história fosse daquele jeito.
Suponhamos que eu queira uma história na qual um personagem deve ser morto por um meteorito, na solidão do deserto, em uma noite de lua cheia. Terei que dotar o personagem de características tais que tornem esse final “verossímil”. Vejamos: Esse personagem deverá ser um homem aventureiro, para estar sozinho, à noite, no meio do deserto. Além disso, deve ser um sujeito forte, com o preparo físico necessário para caminhar por trilhas difíceis e suportar as dificuldades esperadas: calor e frio excessivos, caminhos tortuosos, ataques de animais etc. Basta isso de características físicas. Quanto às psíquicas, ele deve gostar da solidão noturna para justificar a curiosidade quanto a fenômenos astronômicos. Poderia ser um astrônomo, que foi observar uma chuva de meteoros no deserto do Atacama… e assim por diante.
Para finalizar, tento construir personagens mais complexos que as pessoas que conhecemos dentro da nossa bolha de relações sociais; e essa complexidade deve ser tal que atraia todos os fatos que lhe ocorrem na história, inclusive os acidentes e os fatos aparentemente aleatórios. Quando estou em dificuldades com esse assunto, lembro-me das palavras de Assis Brasil: Macabéa tinha de morrer daquela forma!
Novembro/2025
Conversa
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