Outro dia, almocei com amigos e um deles começou a falar sobre Jung e disse algumas palavras sobre sincronicidade. Fiquei curioso e fui estudar um pouco. Descobri que a sincronicidade abalou um pouco a minha noção de acaso. Ela descreve a ocorrência simultânea de dois ou mais eventos, de maneira significativa, mas sem uma relação causal aparente entre eles.
A sincronicidade pode ser simplificada como uma coincidência entre “um sentimento, pensamento ou emoção” — uma situação psíquica qualquer — e um evento do mundo objetivo, obviamente sem relação de causa e efeito. Por exemplo: você é montanhista e está fazendo uma caminhada solitária e começa a pensar em “avalanche”. De repente, uma pedra se desloca do topo da montanha, passa à sua frente e cai no abismo ao lado da trilha. Será que você possui o dom da “telecinesia?” Eu acho que não, mas esse evento pode ter um profundo significado simbólico para você, que o vivenciou.
A sincronicidade é uma relação acausal, não segue a lógica comum da ciência (relação de causalidade), nem preenche o conceito comum de acaso (sem significado, incerto, acidental, imprevisível, aleatório).
Para a ciência, os eventos “sincrônicos” não causais têm uma mera correlação temporal e podem levar a um viés de observação (ex: você frequenta uma academia e observa pessoas com sobrepeso tomando refrigerante “diet”. Vê que seus amigos mais magros não ligam para bebida “diet”. Você pensa sobre o assunto e pode concluir que bebida “diet” leva a aumento de peso, pois você só viu pessoas com sobrepeso bebendo refrigerante “diet”. Parece que isso não é verdade. Há todo tipo de pessoas que toma bebida “diet”. O que houve foi um “viés de observação”. O fato de você ter visto somente parte do “universo” — a associação temporal de sobrepeso e bebida diet — provocou a distorção que é denominada “viés de observação”. O que você observou foi um conjunto de eventos aleatórios, com uma relação temporal e sem relação de causa e efeito.)
O Escaravelho
Alguns dizem que o fato abaixo ocorreu com o Jung, outros dizem que o psicanalista o contava como uma piada sobre as suas sessões de terapia.
“Uma paciente racionalista estava contando um sonho em que recebia um besouro de ouro (um escaravelho, um símbolo egípcio de renascimento).
Enquanto ela relatava o sonho, Jung ouviu um ruído na janela. Ele se virou e viu um inseto batendo no vidro. Ele abriu a janela e pegou o inseto: era um escaravelho dourado (Cetonia aurata), a espécie viva que mais se assemelha ao besouro de ouro do sonho. Essa coincidência poderosa e significativa quebrou a resistência racional da paciente e permitiu um avanço em sua terapia. O evento externo (o inseto real) foi sincrônico ao evento interno (o sonho e o estado psíquico da paciente).”
Isso é ciência ou bruxaria?
“A sincronicidade é um conceito que busca uma explicação para certos fenômenos de coincidência notáveis, cuja conexão causal não pode ser estabelecida, ao menos com os meios disponíveis.” São palavras do Jung ao tratar de fenômenos que não são reprodutíveis ou mensuráveis, e por isso, não podem ser tratados pela ciência, embora ocorram frequentemente na experiência humana.
Para não deixar o Jung falando sozinho, dou o meu testemunho pessoal sobre sincronicidade: gosto de esporte (corrida e caminhada) e muitas vezes ainda estou correndo pela rua ou estrada ao anoitecer e as luzes dos postes se acendem. Não é incomum que, ao passar por um poste, eu veja a lâmpada se apagar, às vezes, isso ocorre em uma sequência de postes no meu caminho. Levo na brincadeira e digo à minha mulher que cheguei mais iluminado por ter roubado a luz dos postes. O que será isso?
Brincadeiras à parte, o Jung levava isso muito a sério, vejam só: Wolfgang Pauli (1900–1958) foi um dos fundadores da mecânica quântica e formulou o Princípio da Exclusão de Pauli, essencial para a estrutura dos átomos. Pauli sofreu uma crise pessoal e procurou ajuda terapêutica com um discípulo de Jung. Depois, ele iniciou uma correspondência direta com Jung, que duraria mais de duas décadas. Dessa relação epistolar surgiu um diálogo interdisciplinar raro: entre um físico rigoroso e um psiquiatra e psicoterapeuta, interessado em simbolismo, mitologia e o inconsciente.
As principais obras ligadas a essa colaboração são:
- “Sincronicidade: um princípio de conexões acausais” – Jung (1952).
- “Atom and Archetype: The Pauli/Jung Letters” – livro que reúne as cartas trocadas entre os dois.
- “Psicologia e Alquimia” – onde Jung desenvolve o conceito de Unus Mundus com base na alquimia.
Pauli também contribuiu com reflexões profundas sobre sonhos, arquétipos e simbolismo, fornecendo a Jung um extenso material onírico que foi analisado em conjunto.
Sincronicidade: quando o acaso ganha sentido
A propósito de sincronicidade (relembrando que os eventos são aparentemente casuais, mas revelam um vínculo de significado simbólico para quem vive a experiência), proponho um exercício: tente observar uma sincronicidade. Pode ser que já tenha acontecido de você ter pensado em uma pessoa amiga, que não vê há anos e, de repente, essa pessoa surge à sua frente, na saída do metrô. Tente observar coisas parecidas com essa situação e pense a respeito. Pode ser interessante.
Para Jung, não se trata de acaso, mas de uma conexão entre a sua psique e o mundo externo, como se ambos participassem de um mesmo tecido. Essa experiência de sincronicidade seria, não uma mera coincidência estatística (se um evento pode acontecer, em algum momento ele acontecerá), mas um momento em que os arquétipos — padrões psíquicos inconscientes pertencentes ao inconsciente coletivo — surgem na consciência, revelando a unidade entre a psique individual e o mundo.
Unus Mundus
Se há conexão entre a psique e o mundo externo, por que não haveria uma realidade única e fundamental, da qual tanto a mente quanto a matéria são manifestações diferentes? Como se o mundo psíquico e o mundo físico fossem dois lados da mesma moeda.
Essa ideia não é original de Jung — tem raízes na filosofia neoplatônica, na alquimia medieval e em pensadores como Nicolau de Cusa. Mas Jung a adaptou para a psicologia e a ligou ao conceito de sincronicidade (momento em que o acaso ganha significado e os arquétipos saem do oceano profundo onde habitam — o inconsciente coletivo — e nos trazem coisas como inspiração, sincronicidade, premonição).
Jung via as sincronicidades como os pontos em que a psique e a matéria se entrelaçam. Eles seriam os “nós” desse tecido comum do “Unus mundus”. Esse encontro fortuito, quando o arquétipo deixa as profundezas abissais do seu habitat — o inconsciente coletivo — e surge sob a forma de uma sincronicidade. Pode ser em momentos de tensão psíquica ou em um sonho, pode ser na literatura, na criação artística ou em uma sessão de terapia. Surja onde surgir, é um fenômeno fascinante.
Para finalizar, invoco o santo da literatura e faço algumas perguntas a você:
— Você já sonhou salvando a sua amada de um incêndio e ocorreu um incêndio na manhã seguinte?
— Você já “sentiu” que o seu amado enfrenta as dificuldades com valentia, como um herói; e algumas horas depois ele aparece e diz que salvou uma criança que havia sido atropelada?
— Você já abriu um livro ao acaso e viu sua dúvida esclarecida?
— Se você é religioso, já abriu a Bíblia ao acaso e se deparou com um salmo que acalmou sua alma?
Marco Cotrim
Outubro/2025
Conversa
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