Um olhar sobre a escrita criativa
Quantas vezes você já se fez essa pergunta? Possivelmente, muitas. Como os cientistas, inventores, publicitários e artistas criam e encantam o mundo? Quantas vezes você já se fez essa pergunta? Possivelmente, muitas. Eu também não sei respondê-la.
Falando de escrita criativa e de escritores, há quem imagine as ideias surjam de momentos mágicos de revelação. As musas apareceriam soprando a inspiração nos ouvidos do poeta ou escritor. Há ainda aqueles que recomendam disciplina para a escrita: escrever todos os dias até que as boas ideias apareçam. Se você pretende escrever algo com significado, lamento informar que as musas não virão. A mera disciplina de sentar-se e escrever também não ajudará. Quer dizer que escritores são seres especiais que já nascem sabendo escrever? Não. Escritores são aqueles que leem, leem e estudam muito antes de escreverem algo. Há ideias a serem apreendidas, há técnicas a serem estudadas e muito caminho a percorrer, antes de se escrever algo digno de ser lido. Digo isso com a autoridade e humildade de alguém que tenta aprender a escrever há bastante tempo: não há caminho fácil. Cada página significa muitas horas de angústia e frustração.
As ideias não surgem do nada. Um livro, um romance ou um conto, escrito por alguém sem noção da técnica mostra isso desde a primeira página. A realidade deve ser transfigurada para a forma de ficção, com delicadeza tal que o leitor suspenderá a sua descrença e firmará com o autor um pacto ficcional. Ele mergulhará em sua história e “acreditará” no que lê por ter suspendido o seu julgamento sobre a realidade. No momento da leitura, o leitor “suspenderá” qualquer avaliação sobre a realidade da história e não exigirá do autor nenhuma comprovação. Ele passa a “crer” no que lê, sem nada exigir, exceto o seu próprio envolvimento com a trama. Parece fácil, mas não é.
Para entreter um leitor não basta utilizar ferramentas básicas da escrita como a memória, a observação e a imaginação. Claro que isso ajuda, pois a realidade é a matéria-prima da escrita ficcional, mas não basta. Não basta observar os passageiros de um trem ou se lembrar de uma viagem da sua infância para construir um personagem que vai viajar de trem, devem ser observados outros aspectos para que sua história seja crível. Pois é: sua história pode ser impossível, mas deve ser crível. Se você escrever algo possível e incrível (p. ex: morrer de acidente aéreo sem nunca ter viajado de avião), poderá ser uma reportagem, um relatório ou outra coisa qualquer, mas não será uma boa história de ficção.
Para finalizar, mais uma informação para quem queira se arriscar na escrita criativa: as ideias crescem quando alimentadas com livros e outras informações do mundo, isso significa manter olhos e ouvidos abertos, quanto mais informação você tiver, melhores histórias poderão surgir. Ah, não se esqueça de que é preciso trabalhar pesado depois que você conseguir a tão falada “inspiração”. Escrever todos os dias, mesmo sem “inspiração”, abre espaço para que as ideias apareçam. Curiosamente, as melhores ideias costumam surgir quando estamos no meio da escrita, não antes dela.
Um abraço.
Marco Cotrim
agosto/25
Conversa
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