Há algum tempo propus um exercício de filosofia: olhar-se no espelho, logo de manhã e se perguntar — Quem sou eu?
Hoje levo esta questão um pouco mais longe.
Acordei imprudente.
Sem ser filósofo, linguista ou neurocientista, atrevo-me a falar sobre “consciência” — esse mistério que ronda nossos dias e noites. Tenho uma atenuante: isto é apenas uma conversa. Não pretendo ensinar nada, e aceito com humildade qualquer crítica, correção ou discordância.
O tema me ronda há anos — e ganhou urgência ao acompanhar, de perto, um familiar afetado pela demência. Entre medos, fantasias e delírios, chegamos a uma conclusão (aqui em casa): “o mundo é a consciência que se tem dele”.
O que é “consciência”, afinal?
Segundo o dicionário Houaiss:
consciência
substantivo feminino
1 – sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade do seu mundo interior.
2 – sentido ou percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais, funcionando como juiz que ordena acerca de coisas futuras e que se traduz em sentimentos de alegria, satisfação, ou de culpa, remorso, acerca de coisas passadas (agiu conforme sua; estar em paz com sua consciência).
3 – sistema de valores morais que funciona, mais ou menos integradamente, na aprovação ou desaprovação das condutas, atos e intenções próprios ou de outrem (aquilo lhe feriu a consciência, não faz nada que seja contra a sua consciência).
4 – conhecimento, convicção, discernimento, compreensão (tinha a consciência do dever cumprido).
Ou seja: a consciência abrange tanto a dimensão emocional quanto a ética e racional. Parece simples. Mas não é.
Um mistério sem resposta
A compreensão do que seja a consciência é objeto de estudo da filosofia, da ciência e da religião há muito tempo, mas o mistério ainda não foi desvendado. Será que o mundo é a consciência que se tem dele? Será a consciência produto da mente de um “observador” ou a própria realidade observada?
Deixo as perguntas.
Desde a Grécia Antiga até a neurociência atual, filósofos, cientistas e espiritualistas têm tentado responder a esta pergunta: de onde vem essa experiência subjetiva que chamamos de “eu”?
Descartes (1596 – 1650) começou duvidando de tudo — dos sentidos, das tradições, até da sua própria existência. Afinal, se nossos sentidos nos enganam (como quando vemos uma vara parecer torta dentro da água), o que podemos realmente saber? Sua única certeza foi a dúvida. E dela nasceu a famosa frase: “Penso, logo existo” (Cogito, ergo sum). A consciência, para ele, era a prova de que havia um “eu” pensante. Assim, inaugurou-se uma noção moderna de “autoconsciência”, distinta daquela do latim clássico (conscientia), que significava “conhecimento compartilhado”.
Isso resume o conceito de “racionalismo cartesiano”, segundo o qual a verdade não pode ser atingida por meio do conhecimento sensível (que vem dos sentidos), mas deve ser buscada na abstração e na consciência, onde moram as ideias. Aqui podemos detectar um ponto comum entre Platão e Descartes — ambos dualistas, separam o mundo físico do mundo das ideias, separam a mente e o corpo.
O enigma persiste para a ciência
Apesar de décadas de avanços na neurociência — e de sabermos muito sobre anatomia, redes neurais e imagens cerebrais — a consciência segue sendo um enigma. Sabemos que ela está associada a certos padrões cerebrais, mas não sabemos como esses padrões se transformam em experiência subjetiva.
A psicanálise (desdenhada por alguns e idolatrada por outros) acertou um belo golpe na “consciência” dos orgulhosos. Freud mostrou que muito do que pensamos, decidimos e sentimos acontece sem que saibamos — no inconsciente. Somos conscientes de que não temos plena consciência. Um paradoxo elegante, mas perturbador.
Para embaralhar ainda mais, Jung nos traz memórias primordiais, sentimentos e lembranças compartilhados por toda a humanidade, denominados “inconsciente coletivo”; onde estão abrigados os arquétipos — padrões primordiais que se manifestam em sonhos, símbolos culturais, mitos, literatura e comportamentos pessoais.
Pode-se avançar um pouco e pensar sobre os mitos de todas as culturas existentes na humanidade. Para nos ajudar nessa empreitada, podemos recorrer a Joseph Campbell, estudioso da mitologia — talvez o maior — e ler o seu livro “O Herói de Mil Faces”
E os mitos, o que nos dizem?
Abaixo, reproduzo algumas palavras da introdução ao livro, palavras do Campbell, que dispensam quaisquer comentários:-
“Há, sem dúvida, diferenças entre as inúmeras religiões e mitologias da humanidade, mas este livro trata das semelhanças; uma vez compreendidas as semelhanças, descobriremos que as diferenças são muito menos amplas do que se supõe popularmente (bem como politicamente). A esperança que acalento é a de que um esclarecimento realizado em termos de comparação possa contribuir para a causa, talvez não tão perdida, das forças que atuam, no mundo de hoje, em favor da unificação, não em nome de algum império político ou eclesiástico, mas com o objetivo de promover a mútua compreensão entre os seres humanos. Como nos dizem os Vedas: “A verdade é uma só, mas os sábios falam dela sob muitos nomes”.
Será que essa “mitologia coletiva” também não seria uma forma de consciência partilhada? Técnica, moral… ou ambas?
Um espelho fluido e ético
A consciência também é moldada pela linguagem, pela cultura, pela moral. Ela oscila. Às vezes estamos plenamente conscientes. Outras vezes, vivemos no automático, anestesiados. Ter consciência também significa assumir responsabilidade — pelos atos, pelos erros, pelo mundo que ajudamos a construir.
Por falar em linguagem, introduzo mais um detalhe no desvendamento do significado de “consciência”. Na nossa língua, a palavra consciência abrange, pelo menos dois significados:
- Consciência quanto ao aspecto técnico, relativa à reunião de conhecimentos e ao processo do pensamento; e
- Consciência quanto ao aspecto moral, que diz respeito à distinção entre certo/errado; aos sentimentos de dever, culpa e à responsabilidade sobre atos próprios.
Na língua inglesa, temos uma palavra para cada um desses significados:
Consciência Técnica (Cognitive Awareness): “Consciousness“; e
Consciência Moral (Ethical Awareness): “Conscience” que seria a voz interior que julga ações com base em valores éticos. (Santo Agostinho (séc. IV) associou “conscientia” à capacidade divina no ser humano de acessar a lei moral. Kant, no século XVIII, a chamou de “imperativo categórico — um princípio ético inato).
Em busca de nós mesmos
No fim das contas, talvez a consciência não seja uma coisa, mas um processo. Um espelho fluido, onde o “eu” se vê, se esquece, se transforma.
Talvez sejamos apenas “sonhadores que sabem que sonham”. E isso — só isso — já nos torna únicos.
Ou, como escreveu Fernando Pessoa com o heterônimo Bernardo Soares:
“De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.”
Um abraço
Marco Cotrim
Conversa
Deixe o primeiro comentário