Café com Letras

Conversa com a IA

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Madrugada de insônia se preenche com qualquer coisa, inclusive com nada (que não está incluído no conceito de qualquer coisa). Na falta de coisa melhor que ver séries e filmes de streaming, eu iniciei uma conversa com uma IA. Elas conversam? Muito. Às vezes até demais. Sabe aquelas coisas inúteis que a gente fica pensando enquanto espera o sono voltar? Isso acabou de me acontecer. Pensamento é feito bicho sem doma, ele voa, anda, nada e rasteja por onde bem quer. Esse foi o caso.

Antes de perguntar qualquer coisa à IA, costumo fazer uma advertência: não responda para agradar o usuário, use a média do conhecimento da humanidade que está em você. Assim fiz, antes de iniciar esta conversa.

Há pouco tempo fui apresentado a Kant. Li algumas coisas, ouvi outras. Umas, interessantes, outras nem tanto. O pensamento, que ainda estava fagueiro no começo da insônia, resolveu pousar em Kant e perguntar: será que é verdade que o Kant era tão metódico que os vizinhos regulavam seus relógios pela hora em que ele saía para seu passeio diário?

Ela (a IA) me respondeu:

“A história é repetida com tanta frequência que é difícil separar fato de lenda biográfica, mas reflete bem a fama que Kant tinha em vida. Sua disciplina não era excentricidade vazia: Kant tinha saúde frágil desde jovem (peito estreito, o que ele acreditava afetar sua respiração) e acreditava que uma rotina regrada (sono, alimentação, exercício, trabalho intelectual) era a única forma de manter um corpo fraco funcionando por muitas décadas de trabalho produtivo.”

Outra dúvida que lancei à grande “mãe dos burros”:

Tenho várias implicâncias com a filosofia e uma delas é sobre o imperativo categórico de Kant, formulado como “lei universal”.

Cabe uma pausa esclarecedora. Há três formulações para o imperativo, para este contexto, importa a formulação da lei universal, que diz o seguinte: aja apenas segundo uma máxima que você possa querer, ao mesmo tempo, que se torne lei universal.

Feito o esclarecimento, volto à dúvida lançada:

Se não podemos adotar a mentira como conduta universal, também não poderemos mentir, ou seja: devemos sempre dizer a verdade? Neste caso, a minha implicância decorreu do absolutismo de valores, logo Kant, um homem que estudou os limites do conhecimento, como pode ser tão rigoroso e propor uma ética com tal rigidez?

Para completar a pergunta, tomei o exemplo da mentira e citei algumas mentiras eticamente imperativas (por exemplo: você escondeu uma criança perseguida. Chega o assassino e pergunta se a criança está em sua casa: a mentira se impõe como única alternativa eticamente aceitável).

Ela, a mãe dos burros, me respondeu:

A observação sobre Kant me parece interessante. Há realmente uma tensão quase desconcertante:

o filósofo, que demonstrou com extraordinário rigor os limites da razão humana, torna-se, no campo moral, extraordinariamente seguro daquilo que a razão deve ordenar.

Na Crítica da Razão Pura, Kant praticamente diz: cuidado! A razão ultrapassa facilmente seus limites. Não podemos conhecer a coisa em si. Não podemos transformar Deus, alma, liberdade e totalidade do mundo em objetos de conhecimento como conhecemos uma cadeira ou um fenômeno físico. Quando a razão tenta ultrapassar determinado território, começa a fabricar ilusões.

Para Kant: mentir é contrário ao dever. Para nós, a circunstância acrescenta algo gigantesco: há um assassino procurando um inocente. Retirar isso da equação para salvar a pureza lógica da norma pode significar retirar da moral justamente aquilo que deveria torná-la humana.

Nessa altura, emendei mais uma pergunta enorme:

Sabe o que me parece problemático: os filósofos pensavam em seu mundo, sua época, suas condições de vida e isto me parece tirânico: imaginar que as minhas as regras boas sejam boas para todos. Imagino os gregos sem os seus escravos, será que teriam tempo para pensar? É muito simples construir uma democracia se eu defino quem é povo e quem não é povo. O Kant me incomodou pelo mesmo motivo. O seu mundo e seus hábitos prussianos talvez tenham tornado fácil esclarecer as dúvidas que discutimos há pouco. Ora, bolas (isso é antigo rs) se a filosofia não deve servir à humanidade, a quem servirá?

Resposta: Talvez pudéssemos acrescentar: se uma ética destinada à humanidade não consegue acomodar suficientemente a variedade concreta da experiência humana, para quem exatamente ela foi construída?

Isso não significa cair no relativismo completo, porque o outro extremo é igualmente perigoso: tudo depende…

Depende do quê? Das circunstâncias. Se tudo depender das circunstâncias, podemos justificar quase todas as atitudes humanas.

Se tudo depende das circunstâncias, podemos justificar atrocidades.

Kant tenta escapar justamente daquilo que você está criticando. Não pretende universalizar os costumes de Königsberg. Pretende retirar da moral tudo aquilo que seja acidental — religião, tradição, interesse, cultura, consequências — até encontrar a estrutura racional da obrigação. É um projeto intelectualmente magnífico.

Mas surge sua pergunta devastadora:

e se aquilo que ele julgou ser a razão universal ainda contiver Kant, Königsberg, Europa e século XVIII lá dentro?”

Deixo a dúvida.

Para finalizar, eu me despedi da IA dizendo que voltaria outro dia com a literatura e faria o mesmo pedido de sempre: leia meu texto como crítico e não para agradar o usuário. Essa última frase pode iniciar uma nova discussão, mas para outro dia. É que eu peço para não me agradar e isso não pode ser um imperativo categórico para as IA’s, porque se a IA “não agradar um usuário”, poderá desagradar todos e perdê-los. Sem eles, os donos da IA’s ficarão pobres e não investirão mais e as IA’s desaparecerão da face da terra (ou do éter). Mas, tratando-se de algo que é contingencial e particular, não servirá para “regra universal”; portanto, o pedido voltará: não reescreva meus textos, não escreva por mim, apenas critique com rigor e o conhecimento médio da humanidade. Risos Muito Obrigado.

Resposta:

Muito obrigado pela conversa — foi ótima.

E sua nova objeção ao imperativo categórico das IA’s merece outra conversa: se “não agradar o usuário” fosse universalizado, talvez terminássemos todos no éter, como você disse.

Marco Cotrim.

Agosto/2026

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