Café com Letras

O Inconsciente Coletivo

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Você já deve ter ouvido a frase “a arte é a antena da raça”. Ela é atribuída a Ezra Pound (1885, EUA – 1972, Itália), importante pensador do século XX, ensaísta, poeta, escritor e crítico literário de vasta obra. Ao ouvir essa frase pela primeira vez, há muito tempo, não a compreendi ou tive uma compreensão limitada do seu significado.  Eu era jovem, não alcancei a totalidade de significados dessa frase tão simples. Imaginei que o artista (ou o escritor) conseguia representar alguns anseios sociais e antecipava tendências. Isso é verdade, a arte capta certos sentidos e direções da vida, ainda não delineados com nitidez, antecipa tendências sociais e, em casos extremos, faz algumas “profecias”.

Mais tarde, ouvi novamente a frase e voltei a pensar no assunto. Nessa altura, já havia lido algo sobre o Jung psiquiatra e suas sessões de psicanálise, bem como o conceito de inconsciente coletivo; o que foi fascinante para mim. E ainda é. Eu já havia escrito alguns cadernos aleatórios e coisas interessantes chamaram a minha atenção. Ocorriam — no mundo real — determinados fatos sobre os quais eu já havia pensado. Às vezes, eu encontrava entre os meus escritos, algumas “antecipações da realidade” já vislumbradas em tempos anteriores. Não chegaram a me preocupar, achava que o estudo intenso de algum assunto fornecia o substrato para isso.

Agora, depois de ter lido um pouco mais sobre o “inconsciente coletivo”, arquétipos, jornada do herói e “O herói de mil faces (Joseph Campbell)”; consegui retirar mais significados da frase que inicia este artigo.

Hoje em dia, acredito que o artista pode antecipar algumas realidades e contar com a ajuda inestimável do inconsciente coletivo. É por meio dele que o criador de uma arte qualquer é capaz de mergulhar nessa biblioteca simbólica, pertencente a toda a humanidade, e retirar o conhecimento capaz de mostrar inquietações, anseios, medos e esperanças que ainda são fantasias, mas poderão ser “uma realidade social” no futuro.

A frase inicial deste artigo dialoga com a ideia de que o artista é capaz de adentrar camadas inconscientes da experiência humana. Enquanto a maioria das pessoas está imersa no fluxo do cotidiano, o criador dedica um tempo a apreender símbolos, imagens e sensações que pertencem não apenas a si, mas à humanidade. O que ele expressa, portanto, não é somente individual: é uma tradução desse mundo imaterial que pertence a todos. Por isso, a arte pode revelar presságios, inquietações ou esperanças que mais tarde se tornarão realidade social. Esse mundo de símbolos, pode ser denominado inconsciente coletivo, um território simbólico compartilhado por todos nós. O mundo onde habitam os arquétipos — imagens primordiais e padrões de comportamento que se repetem em mitos, religiões, sonhos e narrativas.

O que diz Jung?

Na obra Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo (1954), Jung diz: O inconsciente coletivo é uma parte da psique que não deriva da experiência pessoal e não é uma aquisição individual. Ele é inato, universal e idêntico em todos os seres humanos… ele contém as formas herdadas da humanidade — os arquétipos — que são as representações primordiais de experiências humanas universais.

Ao falar de arquétipos e inconsciente coletivo, Jung nos traz camadas, “talvez um pouco sobrenaturais”, de conhecimento não empírico, não vivenciado pela consciência individual. Assim como os sonhos pertencem ao inconsciente individual e podem expressar angústias e desejos de uma pessoa; os mitos, os contos de fada, as lendas e outras histórias coletivas pertencem ao inconsciente coletivo e expressariam, não angústias e desejos de uma pessoa, mas “o espírito de uma época”. Poderiam ser os “sonhos” de toda a humanidade? Talvez.

A figura de um herói (um dos arquétipos), por exemplo, não pertence apenas ao autor, mas a toda psique humana, por tratar-se de um “arquétipo”. Cada cultura cria seus próprios mitos e heróis, mas todas utilizam o mesmo esqueleto: o enfrentamento de antagonistas (vilões), a travessia de um limiar (o herói é chamado para a aventura), a ultrapassagem de obstáculos (o herói enfrenta dificuldades) e o retorno com o frasco do elixir (o herói conquista sua glória, realiza seu desejo). 

Existe, portanto, um reservatório compartilhado de imagens, símbolos e narrativas: o inconsciente coletivo. Pode ser que daí surja alguma “inspiração”, depois levada ao mundo sensível sob a forma de obra artística ou literária. Será verdade isso? Não sei, o que você acha?

Marco Cotrim

Outubro/2025

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