Nos tempos atuais, carregados de propaganda, redes sociais intrusivas e toda espécie de estímulo ao consumismo desmedido, talvez valha a pena conversar um pouco com Epicuro. Pode ser que ele até nos ensine a usar a internet de uma maneira mais comedida e proveitosa, quem sabe?
Todos sabemos a quantidade de lixo que circula pela internet e como será fácil gastar dinheiro à toa se não tomarmos certos cuidados. Já me fiz a seguinte pergunta: por que uso a internet? Obtive as minhas respostas e pautei a minha vida virtual com base nessas respostas. Claro que cada um deve obter suas próprias respostas.
Isso já me economizou uns trocados (que não gastei) e evitou algumas dores de cabeça.
Faça algumas perguntas antes de tomar uma decisão. Seja a decisão de ouvir alguém, ver um vídeo, ler uma postagem ou comprar algo: quanta alegria aquele gasto (de dinheiro ou tempo) me trará? Ou de outro modo: quanta alegria deixarei de ter se não “comprar” aquilo que me foi ofertado?
Pronto, já estabelecemos uma primeira forma de pedir ajuda a Epicuro na busca da nossa felicidade.
Esclareço: Epicuro — fundador do Epicurismo — foi um filósofo grego que nasceu em 341 a. C. na ilha de Samos e mudou-se, ainda jovem, para Atenas, onde morreu em 270 a. C. Viajou bastante pela Grécia e retornou para Atenas em 306 a.C. para fundar a sua escola filosófica — O Jardim de Epicuro.
Retiro do legado de Epicuro alguns ensinamentos relativos à busca da felicidade. Pode-se afirmar que os fundamentos do epicurismo são a busca pelo prazer e a ausência de ansiedade, dor e medo (ataraxia).
“Não sei conceber o bem, se reprimo os prazeres da mesa, se reprimo os prazeres da luxúria e da audição e se me privo das agradáveis emoções causadas pela visão de belas formas.” (Epicuro)
Muita gente estranhou as ideias de Epicuro, especialmente porque ele e seus seguidores viviam em comunidade nos arredores de Atenas. Corria o boato de que aquele pessoal era “vida louca”, que viviam de festas, orgias e bebedeiras. O caso não era bem esse. Na verdade, Epicuro pregava a busca pelo prazer moderado, pelas amizades e pela reflexão filosófica. Ele era abstêmio, preferia água ao vinho e as refeições do “Jardim de Epicuro” eram frugais: pão, água, vinho, azeitonas e hortaliças e frutas lá colhidas. Conta-se, que pediu a um amigo: “traga queijo, para fazermos um banquete”.
Em busca da felicidade, Epicuro dividiu os desejos em três categorias:
1 – Naturais e necessários: casa, comida, amigos, liberdade;
2 – Naturais e não necessários: comida farta e requintada, luxos, prazeres sensoriais refinados; e
3 – Vãos: poder, fama e riqueza.
Para alcançar a ataraxia (serenidade da alma), Epicuro aconselhava dominar os desejos não necessários. Quem os domina, reduz sua ansiedade (seu prazer é alcançado com pouca coisa), consolida sua liberdade (não é escravo de caprichos) e alcança a ataraxia com prazeres simples (amizade, natureza, etc.). Isso poderia ser sintetizado na frase abaixo:
“Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco.”
Agora estamos aptos a compreender melhor o pensamento de Epicuro. Sua busca, não é pelo prazer banal e vulgar, que excita os sentidos, mas não traz serenidade à alma. A busca se refere ao prazer moderado e contínuo, sem ansiedade. É o contentar-se com menos e, em vez de desejar mais, que tal agregar qualidade ao que já possui?
Talvez a nossa riqueza não precise de um acréscimo de bens materiais, mas de um corte em desejos inúteis.
Pense nisso.
Deixo uma recomendação do próprio Epicuro:
“Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo na velhice. Nunca é cedo ou tarde demais para cuidar da saúde da alma.”
Para finalizar: em nossa época (chamo-a de “a era do desespero”) plena de obsessão pela produtividade, plena de ansiedade pelo consumo; atrevo-me a fazer uma recomendação àqueles que têm o suficiente e continuam infelizes — Use Epicuro sem moderação.
Conversa
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