Outro dia, falei, aqui, sobre a semelhança entre o olhar do escritor e o olhar do filósofo. Disse que ambos “se espantam” perante a natureza. Como, atualmente, não nos espantamos mais perante a natureza, creio que podemos mudar essa expressão para: a filosofia e a literatura continuam se espantando, não mais sobre a natureza, mas diante do óbvio. Eu até sugeri um exercício filosófico que pode ser feito por qualquer de nós. Se você acha que as coisas são simples e a ciência já desvendou os maiores mistérios da natureza, relembro o exercício proposto.
Em um dia qualquer, após o banho matinal, você acaba de se pentear e dá uma última olhada no espelho, antes de sair para o trabalho. Olhe nos olhos da sua imagem refletida e se pergunte: QUEM SOU EU? Ora, que exercício bobo, eu me conheço e todas as pessoas próximas sabem, exatamente, quem sou eu. Pois bem, faço de conta que conheço a pessoa que fez essa pergunta ao espelho e vou questioná-la sobre coisas corriqueiras.
Supondo que você seja uma mulher de quarenta anos, mãe de um casal de filhos e trabalhe em uma profissão técnica. Além disso, você é muito bem qualificada, tem vasto conhecimento da sua área e alcançou sucesso profissional e financeiro. Perguntas: você é uma profissional de sucesso ou é a mãe negligente, que sacrifica a dedicação aos filhos, para atender caprichos pessoais? Sendo profissional de sucesso, você sempre empregou seu conhecimento para exercer seu ofício da melhor maneira possível, ou já aceitou serviços questionáveis, do ponto de vista ético, por oferecerem melhor remuneração? Você tem o hábito de cumprir seus compromissos, ou já deixou de cumpri-los ante uma paixão irrefreável? Caso você não tenha vícios, já se questionou sobre o “remedinho para dormir”, mesmo se usado apenas em épocas muito estressantes? Se você é religiosa, cumpre, fielmente, os preceitos da sua religião?
Agora, suponho que você seja homem, também de quarenta anos, ateu, profissional liberal, casado, com três filhos e uma família admirável. Você também é profissional de sucesso, conseguiu enriquecer apenas com o seu trabalho e se acha um homem justo.
Perguntas: Você sabe o nome da babá dos seus filhos? Quando se casou, você prometeu fidelidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Essa promessa foi cumprida, até este momento da sua vida? Você é, digamos, advogado; seus serviços são caros e você os oferece apenas à classe alta. Alguma vez você se comprometeu a buscar justiça? Se o fez, acredita que só aqueles que podem pagar pelos seus serviços merecem justiça? Você se considera um homem honesto, patriota e rigoroso com a ética? Alguma vez forjou despesas operacionais ou deixou de dar recibos, para se esquivar do imposto de renda? Uma última pergunta chata: Você acha que dinheiro traz felicidade? Se acha, você a conseguiu?
Esclareço que a intenção não é julgar qualquer pessoa, mas somente introduzir algumas questões incômodas para nós todos. A intenção é ilustrar uma atitude filosófica, nada mais.
Qual o significado e a utilidade disso tudo? De que adianta ficar especulando sobre situações hipotéticas, sem aplicação prática imediata? A resposta é simples: isto não tem significado nem utilidade. Assim como a literatura, a filosofia também é inútil. Não se ganha dinheiro e corre-se o risco de sair desses questionamentos com uma leve depressão.
Por outro lado, do mesmo modo que pode levar a uma depressão, a atitude filosófica serve também para nos consolar.
Ante as questões acima, a filosofia poderia nos oferecer a seguinte consolação: somos seres humanos, como quaisquer outros, nem melhores nem piores. A condição humana nos torna permeáveis a coisas boas e a coisas ruins. Se o fato de termos sido pouco virtuosos(as) em determinada época da vida nos trouxe arrependimentos e remorsos, a atitude filosófica pode ajudar a melhorar a vida no para o futuro, ajudar a refletir melhor sobre quem somos nós e quem nós queremos ser.
Se o passado incomodar, nada podemos fazer, apenas tentar evitar sua repetição no futuro. As situações extremas podem nos levar a atos instintivos, os quais podem incomodar depois. Essas especulações, sem situações práticas estressantes, podem nos levar a atitudes mais comedidas ante o estresse. Claro que não se trata de aplicar o imperativo categórico de Kant a todas as situações de vida, seria enlouquecedor; apenas tentar melhorar nossa atitude e diminuir a possibilidade de arrependimento por atos impensados.
Observação: Para Kant, o imperativo seria uma fórmula moral, universal e não dependente de sentimentos e circunstâncias. “Devemos agir de modo que nossa atitude possa ser adotada como lei universal, isto é: se todos agissem assim, o mundo funcionaria bem?”
Conversa
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