O FIO DE ARIADNE
1 DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA
Mito
substantivo masculino
relato fantástico de tradição oral, ger. protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana; lenda, fábula, mitologia.
2 ELIADE, M. Mito e realidade. Trad. Pola Civelli. São Paulo: Perspectiva, 2007
“Tentativa de definição do mito
A definição que a mim, pessoalmente, me parece a menos imperfeita, por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes Sobrenaturais. Eles são conhecidos sobretudo pelo que fizeram no tempo prestigioso dos “primórdios”. Os mitos revelam, portanto, sua atividade criadora e desvendam a sacralidade (ou simplesmente a “sobrenaturalidade”) de suas obras.”
Acima, estão dois conceitos que podem iniciar a nossa aproximação da mitologia. O primeiro é uma das definições contidas no Dicionário Houaiss. O segundo conceito é um excerto do texto Mito e Realidade de Mircea Eliade, escritor, filósofo, poliglota e mitólogo romeno que viveu no século XX, possivelmente, o maior mitólogo contemporâneo.
Podemos simplificar um pouco a definição considerada por Mircea Eliade se a reescrevermos utilizando apenas as expressões sublinhadas, restando algo assim: O mito é uma história sagrada, ocorrida no tempo primordial, que narra a criação de uma realidade (a realidade total ou um fragmento dela) graças às façanhas de entes sobrenaturais. O mito é uma narrativa de criação e fala apenas do que realmente ocorreu.
Neste ponto, o leitor estranhará a expressão “… fala apenas do que realmente ocorreu”. Em sendo uma narrativa “fantástica”, como pode tratar de fatos que realmente ocorreram? É mito, fantasia, invenção, fabulação, etc. Antes de me perder em dúvida e descrença, recorro ao Professor José Benedito de Almeida Júnior, de quem tomo por empréstimo o excerto abaixo:
“Alguns, ao lerem a expressão “o mito narra aquilo que realmente aconteceu”, podem atirar este livro na parede e dizer: “Tolice! Superstição!”. Outros se põem a investigar cientificamente a origem do mito: dilúvios, pragas, ilhas que desapareceram, tal como vemos nos clássicos documentários de televisão. Ambas as posturas são típicas do “homem moderno”, pois, seja rejeitando, seja investigando cientificamente o mito, tenta compreendê-lo na sua perspectiva e não na da cultura na qual o mito se origina. Esteja ela desaparecida ou viva. Para a sociedade na qual o mito é presente, ele narra o que realmente aconteceu. A questão é que essa realidade transcende o plano histórico ou material, mas nem por isso deixa de ser realidade.”
de Almeida Junior, José Benedito. Introdução à Mitologia (Filosofia em questão) (Portuguese Edition) (p. 14). Paulus Editora. Edição do Kindle.
Feita esta introdução, passo a outro aspecto da mitologia: o que tem a mitologia a ver com o nosso mundo moderno, complexo e computadorizado? Quase nada ou quase tudo, depende…
Seja o mito de Teseu e o Minotauro. Estamos falando da Grécia antiga e do jovem herói ateniense, Teseu, destinado a matar o Minotauro (monstro devorador de seres humanos que vivia preso em um grande labirinto). Ao se apresentar para a jornada heroica, Teseu conhece a jovem Ariadne (filha do Rei Minos) e se apaixonam imediatamente. Antes de ele entrar no labirinto, Ariadne lhe entrega um novelo, pede que amarre a ponta do fio na entrada e lhe fala ao ouvido: desenrole o novelo enquanto caminha para dentro. Na volta, siga o fio que você desenrolou. Não há outro meio de sair. Teseu seguiu a recomendação, matou o monstro e seguiu o fio de volta, sem se perder no intrincado labirinto.
O que tem isso a ver com qualquer coisa atual? Vamos pensar? Os mergulhadores de cavernas submarinas e os exploradores de cavernas terrestres utilizam, de maneira escancarada, o fio de Ariadne. Fixam um fio físico (linha de nylon, corda de sisal, de aço ou de plástico resistente) e adentram o mundo desconhecido e escuro das cavernas, de onde poderão voltar em segurança, mesmo que percam suas lanternas.
Agora, uma coisa mais interessante: o fio de Ariadne é um método lógico de resolução de problemas e superação de impasses. Utilizando um método denominado “backtracking” (seguir as pistas para trás, voltando – em tradução livre) podem se resolver problemas lógicos como uma série de decisões em um projeto, um jogo de Sudoku ou um algoritmo de computador.
Caso queira comentar ou complementar algo, o contato está aí, no blog. Fique à vontade.
Taubaté, fevereiro de 2025.
Conversa
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