Uma pequena amostra do romance em construção.
CAPÍTULO 1 – A ESPANTOSA NOITE DE LUA CHEIA
Merêncio e os dois filhos maiores atravessaram o quintal ainda com alguma luz. Os rapazes foram se banhar na represa e o pai se sentou na mureta do alpendre e gritou para a mulher:
— Salu, traz a bacia de água.
Ele se lavou, enxugou-se e vestiu camisa limpa que a mulher deixara sobre o banco. Salu chamou as crianças, que chegaram correndo e se sentaram à mesa em silêncio. Ela trouxe uma panela para a mesa, tirou a tampa e a nuvem de vapor encheu a casa com o cheiro de feijão com jabá.
— Não vem comer, Merêncio?
— Tava aqui assuntando o fogo. Esperando Braulino e Catulo.
— Quer beber uma pinga?
— Hoje, não. Tô com gastura.
Quando os dois filhos mais velhos chegaram, ele se sentou e esperou a mulher recitar sua oração silenciosa, cujo final era sempre a mesma frase, dita em voz alta: — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
— Amém — responderam em coro.
Ao final da refeição, Merêncio pegou seu canivete, o fumo de corda e a pederneira. Preparou o cigarro, mas não o acendeu até sentir o cheiro do café, que bebeu, lentamente, enquanto olhava o céu tingido de vermelho, quase cinza, das últimas luzes do dia.
Esse ano choveu no dia de Finado! — Pensou Merêncio, olhando o céu.
Salu chamou as três meninas: hora de entrar, já tá escuro. Acompanhou suas filhas ao quarto, onde dormiam o casal e as três meninas. Balançou a menor, de seis anos, e cantou para ela. Francisquinha fechou os olhos e inalou o cheiro da mão que se apoiou em sua testa. Mãe tem cheiro bom de feijão com jabá e voz de domingo — pensou a menina e adormeceu.
A mãe se aproximou das redes das gêmeas Doroteia e Abigail, ainda acordadas e abraçadas às suas bonecas de pano.
Um leve empurrão iniciou o balanço das redes.
O pai e os meninos saíram para o terreiro na frente da casa e se acocoraram em volta de um braseiro. As chuvas haviam refrescado a terra, mas o céu já estava limpo e a lua cheia rebrilhava no firmamento. Merêncio aspirou o cheiro de terra molhada, que lhe trazia lembranças de outras épocas. Pensou nos filhos homens, mas foi interrompido por Braulino.
— A noite tá boa para aparecer lobisomem, pai.
Merêncio sorriu, deu uma piscadela e mandou o filho pegar a garrucha.
As crianças arregalaram os olhos e perguntaram se tiro matava lobisomen. Merêncio respondeu que a garrucha só assustava, pra matar tinha que ser bala da prata. Mal acabou de falar, soprou um vento frio, que avivou o braseiro e atiçou a curiosidade dos meninos. Catulo, de doze anos, disse que nunca tinha visto cachorro latir para vento de chuva. Os cães uivaram, a lua brilhou mais intensa e se ouviu ruído de gotas grossas fustigando a mata. O barulho se aproximou do terreiro, mas a terra continuou seca e o céu limpo. Não veio chuva e sim um redemoinho da altura de um homem, rodando e zunindo, que levantou a poeira do chão e desenhou no ar um cálice prateado pela lua.
— Atira pra cima, Braulino. Se for livosia de lobisome, ele foge.
O rapaz apontou para o céu e atirou. O estampido seco varou o espaço. A mãe chegou correndo.
— Salve São Jorge Guerreiro! O que é isso Merêncio?
— Nunca vi nada parecido.
Ninguém falou nada nos minutos que se seguiram. O redemoinho dançou, rodou em volta da fogueira, a luz em seu interior diminuiu e ele se afastou, vagarosamente, até desaparecer na distância. A conversa parou, o silêncio se estendeu tempo suficiente para causar desconforto. Nessa noite, Merêncio não contou mais histórias, mandou os meninos apagarem o fogo e todos entraram.
Quando se deitaram, o marido pôs o braço sobre o ombro da mulher, que se virou de lado.
— Tô com uns engulho, Merêncio. Tomei chá de boldo.
***
Virgem, mãe de Deus, o sol alto, eu ainda na cama?
Salu olhou o quarto dos homens. Vazio. As redes das gêmeas e de Francisquinha. Vazias. Abriu a porta da frente e o terreiro também estava vazio. Nessa manhã, não fez café, nem ficou olhando os homens se afastarem no rumo das plantações, como fazia no amanhecer de todo dia.
— Onde tá o pai e os meninos?
— O pai disse que ia aproveitar o domingo pra bater o feijão que ficou no jirau — respondeu uma das gêmeas.
— Ah… esqueci que hoje é domingo. O padre Leão tá no arraial e nós perdeu a missa.
As meninas haviam deixado o bule no borralho, mas Salu não bebeu café, estava fraca e ainda enjoada. Abriu as quatro janelas da casa, pegou panos e vassouras para limpar os espaços deixados pelas ausências. Não começou a arrumação da casa, pois sentiu alguma coisa grudenta em suas pernas, olhou a roupa e viu que estava vermelha, manchada de sangue.
— Que sangue é esse?
Lavou-se, vestiu roupa seca e se pôs a varrer, mas logo encostou a vassoura na parede e ficou parada. Pareceu um ruído, um ruflar de asas. Mais um barulhinho, agora, semelhante a um resmungo, depois, silêncio. Retomou a arrumação, acabou de varrer e se dirigiu à cama. O lençol também estava manchado de vermelho vivo de sangue. Aproximou-se.
Paralisada.
Arregalou os olhos e gritou. Ninguém apareceu. O grito não saiu da garganta. As pernas fraquejaram, ela cambaleou e se sentou na cama.
Uma criança dormia. Menina. Ao lado, viu a placenta azulada, intacta. Olhou a criança de perto, trêmula.
Valha-me Deus! O que é que tá acontecendo nessa casa?
Pôs as mãos na cabeça e começou a andar de um lado para outro. Lágrimas escorreram.
Aproximou-se de novo, tentou tocar a menina, mas suas mãos não se moveram. O mundo desabou várias vezes antes dela conseguir se mexer.
Voltou à cama e olhou a menina de perto, tocou sua pele com a ponta dos dedos, depois com as mãos. Amarrou o cordão umbilical, cortou-o e embrulhou a placenta no lençol sujo de sangue.
O peito latejava. Palpou por cima da blusa, mais uma surpresa: estava ensopada. Tirou a blusa e o leite jorrou. Salu a levou ao peito.
— Doroteia, Abigail, Ziquiel. Corre aqui, vem ver uma coisa.
— Que é isso, mãe?
— É a irmã de vocês que nasceu. Vai na casa de Siá Dona e traz ela aqui, diz que eu preciso dela inda hoje de manhã.
— Veio assim sem barriga, mãe?
— Foi assim.
— Eu preciso ir com as menina, mãe? Dá só umas duzentas braça…
— Precisa, Ziquiel. Vai logo… e cuida das suas irmã.
Siá Dona chegou e ouviu a história da menina que nasceu quietinha, sem dor e sem barulho. Disse a Salu que era um caso para acreditar sem crer e nada mais comentou.
— Deita na cama, Salu, tira sua blusa e os pano da menina, bota ela na barriga, pele com pele, pra acalmar a mãe do corpo. Vou rezar, enterrar a secundina e fazer um chá pra você beber. É pra parar o sangue. Tem leite no peito?
— Tá cheio, comadre.
***
Merêncio saíra logo cedo, desconsertado pela ausência da mulher, que ainda dormia. Quando voltou do jirau ao fim da tarde, estranhou a presença da parteira. Ouviu, da boca da comadre, a história da menina que aparecera de repente. Ficou pálido e perguntou:
— Ocê já viu mulher parir assim, comadre Siá?
— Inda não… Salu tá lá no quarto, vai lá ver.
— Onte de noite, ela teve um enjoo… só isso. A comadre já sabia que ela tava prenha?
— Nem ela sabia, meu compadre. E a cabrochinha é bonita demais, branquinha que nem um prato de porcelana. Puxou a mãe da comadre Salu.
— A senhora fica por uns dia?
— Fico os quarenta dia do resguardo.
A gente fica velho e não para de ver novidade — resmungou Merêncio e foi ao quarto ver a menina.
É mais branca que Salu!
Encostou na porta e ficou olhando a mãe e a menina. Chegou mais perto e viu no olhar da mulher um brilho há muito desaparecido. Sentou-se na cama.
— Apareceu hoje de manhã, Merêncio, foi tudo o que Salu conseguiu dizer ao marido, que saiu em seguida e deu ordem a Braulino para acompanhar Siá Dona, pois já estava escurecendo.
Nessa noite não teve conversa, todos pensativos, sem outro assunto para falar e sem saber como iniciar uma conversa sobre a menina.
Braulino acompanhou Siá Dona que morava a quinhentos metros. Caminharam por alguns minutos e enxergaram a preta Filipa iluminada pelo candeeiro, na varanda onde as duas se sentavam depois da lida para rezar e contar casos.
— A bença, Siá — despediu-se, Braulino.
— Deus abençoe, meu filho. Fala com sua mãe que amanhã cedo eu volto.
Foi assim que a menina chegou ao mundo, calada.
***
Marco Cotrim
Agosto/2026

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