Mitologia

O Mito De Ícaro

5 min de leitura

O MITO
Ícaro era filho de Dédalo, arquiteto ateniense e construtor do Labirinto de Creta para o rei Minos (esse labirinto já foi mencionado aqui no blog – veja o artigo “O fio de Ariadne”: é o labirinto onde o rei Minos prendeu o Minotauro – monstro devorador de seres humanos.)
Terminado o labirinto, Dédalo foi impedido de deixar a ilha e acabou prisioneiro, junto com o filho.

Sem possibilidade de fuga por terra ou por mar, Dédalo voltou-se para o céu e se imaginou voando como os pássaros. Construiu asas com penas de aves unidas por fios e cera.

Antes de partir advertiu o filho para que não voasse baixo demais, pois a umidade pesaria nas asas e ele cairia no mar. Também não poderia voar muito alto, pois o calor do sol derreteria a cera das asas e o destino seria o mesmo: a queda no mar. 

No início, Ícaro seguiu o pai com prudência, mas, tomado pela euforia do voo, afastou-se do pai e subiu, cada vez mais alto, até que o calor do sol derreteu a cera e as penas se soltaram. Ícaro caiu no mar e morreu afogado. 

Dédalo, impossibilitado de socorrer o filho, continuou o voo até alcançar a Sicília, levando consigo o peso da perda.

O LIMITE COMO CONDIÇÃO DA LIBERDADE
Resolvi escrever um pouco sobre esse mito porque já tratei dos limites da liberdade em artigo que está na seção Café com Letras e há bastante paralelismo entre os temas. O mito mostra que Ícaro não cai no mar por ignorância quanto à técnica, afinal, o seu aparato voador foi construído por exímio artesão: o renomado arquiteto Dédalo. Os dois voaram juntos e apenas o pai chegou ao seu destino. Por quê? 

Embora o conselho de Dédalo seja uma lição de filosofia prática e aplicada ao dia a dia, não corresponde a uma lição de moral simplória e escolar: voe, mas dentro dos limites. Trata-se de uma profunda lição sobre o exercício da liberdade, que sempre vem acompanhada de fronteiras, às vezes nítidas, outras, não. Exercer a liberdade implica navegar entre extremos e comporta riscos que deverão ser assumidos pelo navegante. A queda de Ícaro mostra que o conhecimento técnico não bastou para aquela navegação. A narrativa sugere que ele caiu por insuficiente estrutura (moral ou psíquica) para controlar-se ante o êxtase do voo. Não foi capaz de avaliar o risco e compreender que os limites não são opressores, ao contrário, podem ser salvadores. Tais limites compõem a realidade, são estruturais e não devem ser ignorados. 

Se estivéssemos falando de Santo Agostinho, poderíamos tirar a seguinte conclusão: Deus (para os crentes) ou a natureza, a realidade (para os não crentes) não são responsáveis pelas punições que sofremos — Deus ou a natureza não são responsáveis pelo mal. A má escolha (exercício indevido da liberdade) exercida pelo livre arbítrio já traz a consequência (a punição), que é estrutural, faz parte da realidade. Se alguém escolheu nadar contra a correnteza, em vez de flutuar e seguir o curso do rio, deveria ter avaliado o risco de cansar-se e morrer afogado.

O PODER DA SEDUÇÃO
Pode-se dizer que Ícaro, inebriado pelo prazer da aventura de voar, abandonou a prudência e resolveu testar os limites. Talvez, dominado pelo êxtase do voo, tenha resolvido ignorar os excessos e “esticar a corda” até ultrapassar limites e submeter-se à tragédia. 

Se pudéssemos conversar com os estoicos para oferecer um conselho ao Ícaro, poderíamos transformar a advertência do seu pai em algo assim: “A verdadeira liberdade é a liberdade interior — a capacidade de não se deixar escravizar pelas circunstâncias externas, pelos desejos desordenados, pelo medo da morte ou da dor. O sábio estoico é livre mesmo acorrentado, porque suas correntes não podem atingir aquilo que realmente importa: sua alma, seus juízos, sua vontade”.

CONCLUSÃO
Escolhi as figuras acima para ilustrar este artigo para mostrar duas coisas:

1 — À esquerda, vemos uma ilustração, provavelmente, do século XVII ou XVIII, cujo autor não consegui descobrir. Aí está Ícaro, completamente dominado pelo seu prazer, encaminhando-se para a morte no mar. Observe que a cera se derrete e algumas penas se soltam. Esta é a expressão literal de “morrer de prazer”, uma vez que abdicou da moderação aconselhada por seu pai. 

2 — À direita, está um quadro de Pieter Bruegel, o Velho (1525–1569), que foi um pintor e gravador flamengo do Renascimento, considerado o maior mestre neerlandês do século XVI. É célebre por suas paisagens amplas e cenas de aldeões, nas quais uniu observação aguda, crítica moral e humor refinado. Observe a seta branca que mostra um par de pernas sobre a água: foi o que restou de Ícaro. Vê-se que o mundo não parou com a tragédia particular. Os navios seguem seus cursos e o lavrador continua arando a terra, ou seja: o quadro sugere que a liberdade mal-usada levou à tragédia e não alterou a ordem coletiva. A liberdade do voo estava dentro de limites.

Marco Cotrim
Fevereiro de 2026

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