O CONCEITO
Essa frase do título é de uma entrevista de alguém que conheci ligeiramente e de quem tenho excelentes referências (Aluísio Cotrim Segurado – o atual reitor da USP). O conceito expresso na frase sempre me preocupou e norteou a utilização da minha própria liberdade. Afinal, somos livres? Parece-me que não: as primeiras restrições à liberdade absoluta começam, obviamente, na natureza, e se somam às outras restrições impostas pelos mais diversos agentes.
A palavra “liberdade” tem dezenas de significados e o seu conceito me parece complicado demais para tentar entendê-lo em sua plenitude. Na falta de tempo para passear pela história da filosofia, podemos ficar com algum significado dado por um dicionário (se você for ao Dicionário Houaiss encontrará como primeiro significado para liberdade, o seguinte:
Substantivo feminino 1. Grau de independência legítimo que um cidadão, um povo ou uma nação elege como valor supremo, valor ideal.)
Nascemos dependentes e com liberdade nenhuma, pois sequer temos consciência, requisito primordial para o exercício da liberdade. Podemos dizer, de modo geral, que a liberdade implica deliberação/prática de ato de vontade. Se não há consciência (do latim: cum scientia – conhecimento), a liberdade também não existe, todos os atos serão instintivos e não dependerão de escolhas (podemos ver isso observando o comportamento de animais correndo “livremente” em uma savana ou pássaros voando “livremente”. São livres?
ALGUNS SENTIDOS PARA A PALAVRA LIBERDADE
Liberdade como não-impedimento
Nesse sentido, a liberdade pode ser entendida como “capacidade para a ação”, sem constrangimentos externos ou internos. Aqui já podemos estabelecer um primeiro limite. O constrangimento externo a uma ação é autoexplicativo e não carece de maiores considerações. Também pode haver constrangimentos internos intransponíveis, de natureza moral, religiosa etc., que podem limitar a liberdade de ação, mesmo para os atos mais simples. Seja um exemplo: se você não é uma pessoa de natureza violenta, mesmo não sendo impedido por fatores externos, não escolherá ferir alguém — limite interno.
Liberdade como autodeterminação
Aqui, podemos entender a liberdade como capacidade de agir segundo suas próprias razões ou vontades. Os limites a esse tipo de liberdade parecem mais nítidos. Busquei um pequeno texto de Fernando Pessoa (na figura do seu heterônimo Bernardo Soares): “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as pompas e esplendores do mundo, mas se não podes viver só, és escravo. Não nasceste para a liberdade, porque não sabes isolar-te dentro de ti.” Ainda que chegássemos a esse extremo de isolamento, restariam muitos constrangimentos ao exercício da liberdade sem limites.
Liberdade como realização
Se entendermos a liberdade como capacidade de nos realizarmos como seres humanos, alcançando os sonhos e buscando a plenitude da vida, também não poderemos escapar de inúmeros limites (sociais, morais, legais, biológicos) ao exercício da nossa liberdade.
CONCLUSÃO
Agradeço ao Aluísio pela frase que motivou essa curta reflexão sobre liberdade e consciência, conceitos interligados e interdependentes: não podemos ter liberdade sem consciência, nem esta, sem aquela. Ambas são valores humanos lentamente construídos desde o nascimento, e nunca completados. Dependem de aprendizado, reflexão e prática, os quais nos indicarão as formas de exercermos a nossa liberdade, sem nos esquecermos da inerente responsabilidade pelas consequências dos nossos atos.
O exercício da liberdade não trata apenas da capacidade, do “poder fazer”, trata de agir ou deixar de agir como um ato de vontade, que carrega o peso moral de respondermos pelos nossos atos, tanto aqueles já feitos (responsabilidade retrospectiva – assumir as consequências) quanto aqueles a serem feitos no futuro (responsabilidade prospectiva – responder pelo que poderá advir do ato a ser praticado).
O espaço da liberdade é a consciência. É o local onde lutam as virtudes e os vícios, onde se desenrola a agonia do julgamento, que nos trará a serenidade da boa decisão ou o sofrimento da má escolha.
Marco Cotrim
Fevereiro de 2026.
Café com Letras
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