Escrita Criativa

Coragem para escrever – Confissões de um escritor desconhecido

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Embora continue quase tão desconhecido quanto antes de escrever, atualmente, já consigo me apresentar, em artigos ou postagens de redes sociais, como escritor de ficção. E por que tamanha arrogância, se continuo desconhecido e quase não vendo livros?

Como em toda a literatura, não existe uma resposta simples, mas algumas respostas complexas. A primeira e a mais óbvia: embora não tenha a literatura como profissão, no sentido de não sobreviver dela, já me apresento como escritor porque isso não me parece mais uma fraude, sinto-me escritor. Antes, me autodenominava de “aprendiz de escritor”; agora, já indo para o quarto livro, tomei a coragem de “ser escritor”.

Uma outra resposta para a pergunta é o fato de que, atualmente, sou privilegiado com a condição de aposentado e tenho possibilidade de me dedicar à escrita, ainda que seja pelo simples prazer de escrever e levar emoção aos pouquíssimos leitores. É um verdadeiro luxo escrever e reescrever uma frase ou um parágrafo dezenas de vezes, à procura da melhor forma. É época peculiar da vida, na qual estabeleço meus próprios prazos, estico uma noite de domingo até a madrugada, lendo ou escrevendo, sem risco de “perder a hora” na manhã da segunda-feira que se aproxima.

Todos que nos arriscamos a produzir algumas mal traçadas sabemos o quanto é difícil preencher uma página e oferecê-la à leitura de qualquer pessoa. Antes, todos os medos se apresentavam em minha alma pelo simples fato de não me “sentir um escritor”. 

Como vencer isso se todos os professores de escrita criativa, técnicas de narração, mitologia, filosofia e tudo que é correlato à literatura dizem que não se pode ensinar a arte de escrever? Como me sentir um escritor se não vendo livros, apesar de muitos “mágicos” da internet prometerem nos transformar em um best-seller em noventa dias? Vemos que as respostas se desdobram em outras tantas perguntas sem respostas e escrevo essas confissões na esperança de que sejam sejam úteis a alguém, algum dia.

Outro dia, lendo a Francine Prose (Para ler como um escritor – Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los), interessei-me por um capítulo específico (capítulo 11 – Ler em busca de coragem) e reproduzo algumas linhas:

QUANDO PENSAMOS QUANTAS COISAS aterrorizantes as pessoas são chamadas a fazer todos os dias ao combater incêndios, defender seus direitos, realizar cirurgias no cérebro, dar à luz, dirigir na via expressa e lavar janelas de arranha-céus, parece frívolo, comodista e presunçoso falar sobre escrever como um ato que requer coragem…

…No entanto, a maioria das pessoas que tenta escrever experimenta não só necessidade de coragem como desalento, à medida que as consequências reais ou imaginárias – falhas e humilhações, exposição e inadequação – dançam diante de seus olhos através da tela ou da página vazias. O medo de escrever mal, de revelar algo que gostaríamos de manter oculto, de cair no conceito dos outros, de violar nossos próprios padrões elevados, ou de descobrir algo sobre nós mesmos que preferiríamos ignorar são apenas alguns dos fantasmas amedrontadores.

(Prose, Francine. Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los (Portuguese Edition) (p. 240). Zahar. Edição do Kindle.)”

Ao terminar o capítulo, vi todos os meus medos expressos com clareza e concluí que só me sinto escritor porque perdi o medo da exposição, do julgamento, da maledicência das redes sociais e daquelas pessoas que adoram o fracasso alheio.  Ora, ser escritor não é ser alguém especial, com um dom divino de emocionar outras pessoas, não é alguém com tal conhecimento da língua portuguesa que não cometa erros (às vezes grosseiros), não é alguém superdotado que leva seu manuscrito à editora e os editores são tomados de paixão e publicam seu texto imediatamente. 

Ser escritor é ser um trabalhador constante, assíduo no hábito de se sentar, ler, estudar e escrever. Assim eu me vejo como um escritor: alguém que lê, escuta e respeita os bons escritores lidos por milhares de pessoas, ou não; alguém que lê, relê e estuda os clássicos (mesmo que não goste de alguns) e os respeita por saber que são clássicos por alguns motivos, ainda que não saibamos quais.

Apesar de não gostar de dar conselhos, permito-me oferecer uma recomendação aos aspirantes ao ofício de escritor: se você é jovem e pretende escrever, escreva. Não se iluda com luzes da ribalta, apenas escreva (não se esqueça de ler muito e estudar muito). Se você é velho, como eu, e pretende escrever, escreva e iluda-se menos ainda, mas escreva. Nós, velhos, temos uma importante ferramenta literária e somos hábeis no seu manuseio: a memória. 

Para finalizar, saiba que uma das melhores coisas de se ouvir é uma frase parecida com esta: Nossa! Como está bonito isso (frase, descrição, narrativa ou livro). É emocionante.

Marco Cotrim

Outubro/2025

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