Subi o lajedo, que era um morro só de pedras e calangos de todos os tamanhos e cores; e caminhei por dez minutos até encontrar o “caldeirão” onde os assassinos jogaram o corpo da menina. É uma fenda na rocha com as dimensões de um metro e meio de largura por outros quatro de comprimento. É mais estreito nas pontas, por conta de duas leves angulações com a concavidade para dentro, dando-lhe uma forma aproximada de caixão de defunto. Dizem que o poço era mais redondo, foi se afunilando com o tempo, até assumir a forma atual; e que isso vem acontecendo desde que ali jogaram o corpo da menina. Quem sabe? Não me aproximei demais, a rocha estava molhada de chuva e aumentou o medo de escorregar e submergir na água verde, sem chance de sair do poço.
Não sei se a menina fez ou faz milagres, mas aquelas horas ali passadas trouxeram bálsamo à minha alma.
Sentei-me a meditar.
A tarde descia e a sombra de um angico coroado de branco, nascido à beira do lajedo, esticou e me protegeu do sol; senti o sopro de viração doce e inalei a vida com seus cheiros. Apreciei as delicadas flores brancas do angico, muito pequenas e agrupadas em volumosos cachos a desafiarem a dureza do sertão. Era o primeiro dia de agosto, as árvores se cobriam com aquele delicado véu e se ofereciam, como noivas, aos pássaros e insetos, seus parceiros na luxúria da natureza. Ainda não era hora dos frutos, em vagens marrons cheias de mistérios e curas para vários males; de tosse a blenorragia, diabetes e artrite.
O tempo passou entre calangos e corrupiões; se não fiquei feliz, de dar risada à toa, também não fiquei triste. Apreciei o baixar do sol no horizonte e o refrigério de umas gotas de chuva para esticar minha estadia até o cair da noite, só não fiquei mais porque a curiosidade sobre as notícias da corte me obrigou a levantar acampamento e pedalar de volta à pensão.
(Esta leitura pode ser complementada com o vídeo intitulado: A linguagem nebulosa dos trapaceiros.)
Conversa
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