Escrita Criativa

O olhar do escritor

3 min de leitura

Todos (ou quase) temos capacidade de escrever; entretanto, há maneiras e maneiras de se escrever um texto. Há um modo peculiar de tratar a linguagem escrita que me causa certo deslumbramento, desde que o conheci, há alguns anos: a Escrita Criativa. Não há uma definição exata do que seja isso. Pode ser um conjunto de técnicas para se dotar a escrita de significado, pode ser um jeito de transmitir emoções com a linguagem escrita, pode ser uma escrita que valoriza o olhar do escritor e o capacita a descrever claramente as imagens e sensações que lhe vêm à mente e pode ser tudo isso junto.

Como aprendiz de escritor, interessado em escrever ficção, entendo a Escrita Criativa como uma certa “mágica” que separa um texto comum daquele saído da imaginação de um escritor, que nos agarra pelo pescoço desde o primeiro parágrafo.

Para ilustrar, imagine-se escrevendo a história de um defunto que vai contar a sua vida, começando pelo dia da morte. Pois bem: agora leia abaixo os dois primeiros parágrafos de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis.

CAPÍTULO 1 – Óbito do Autor

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia.

O texto acima encerra a necessidade de mais argumentação. Claro que Machado de Assis não sabia o que era Escrita Criativa, no sentido que a empregamos hoje. Nem o conceito de Escrita Criativa institucionalizada existia naquela época nem ele precisou de tal auxílio para escrever seus clássicos. Os grandes mestres faziam, naturalmente, o que podemos fazer atualmente por meio da Escrita Criativa: escrever algo que emocione um leitor, algo capaz de encantá-lo ou levá-lo ao desespero.

A minha experiência pessoal com a Escrita Criativa deixou-me o sentimento de que ela tem o condão de refinar “o olhar do escritor”. E que olhar é esse? É um jeito diferente de ver as coisas comuns do cotidiano, é um olhar enviesado sobre a realidade.

Muitos dizem que é um olhar de espanto, de admiração, como se fosse a primeira vez. Um olhar de criança. Outros ensinam que é um olhar de muito perto ou de muito longe. Se está na praia, não basta ver a areia, as pessoas ou as ondas; coloque-se na lua e veja o pontinho azul que é a terra ou imagine-se uma minúscula formiga tropeçando nos grãos de areia maiores que sua cabeça. É o olhar da estranheza!

Boa leitura!
Que a sua viagem seja cheia de aventuras.

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