I. Quando o sagrado se retirou.
Houve um tempo em que os deuses falavam por meio dos sacerdotes, poetas ou dos rapsodos. Homero, Hesíodo, Sófocles, Eurípedes e tantos outros eram instrumentos de uma voz maior, vinda de um lugar onde não havia separação entre o “mito” e a vida cotidiana. O divino era tecido na rotina, não só da religião; também do comércio, da navegação, da paz e da guerra. Entretanto, algo foi modificado. Na Grécia antiga (mais ou menos século VI a. C), iniciou-se uma grande transformação: a passagem da revelação à explicação, da crença à verdade, do Mythos ao Logos — do Mito à Razão.
Em virtude de algumas peculiaridades, a Grécia abrigou uma das maiores revoluções da humanidade, senão a maior: o surgimento da filosofia. O espanto se transformou em curiosidade e a explicação lógica substituiu o sobrenatural. Os questionamentos postos pela filosofia procuraram explicações lógicas para fenômenos “divinos”. Isso não ocorreu de forma abrupta, mas em um processo que durou séculos e que ainda permanece nos nossos dias. Esse processo de substituição do mito pela razão ainda transforma a relação do ser humano com o mundo, com o divino e consigo mesmo.
Eis que chegamos à modernidade e a razão passou a ser cultuada como novo Deus. O Olimpo já tem novo senhor (no caso, nova senhora): a Razão. Nós, humanos, ganhamos explicações e “evoluções”, mas perdemos sentido, perdemos amor, perdemos paz.
A “morte de Deus”, anunciada pelo personagem de Nietzsche (Assim falou Zaratustra), não foi teológica, não foi um ato de ativismo ateu. Não foi a morte do Deus cristão, de Adonai ou de Alá — foi a morte do mito, o desabamento do edifício metafísico que nos consolava. O mito, exilado da vida cotidiana, abandonado à solidão, deixou-nos o ceticismo como legado.
Será que o mito morreu ou apenas migrou?
II. A nova mitologia
Se Deus está morto, nós estamos liberados para o desfrute irresponsável dos prazeres da vida?
Não parece.
Ao nos afastarmos do divino e condenarmos nossos deuses à solidão eterna, nos restou um abismo de significado. A solidão dos deuses refletiu na humanidade e deixou o vazio, antes ocupado por um mundo simbólico de consolação e sentido.
A busca incessante pela verdade “matou o divino”, mas não destruiu completamente a credibilidade do sagrado, que permanece viva na literatura, na mitologia nas religiões e em todos os mitos da humanidade.
Os deuses sempre estiveram de mãos dadas com a literatura, desde a Teogonia de Hesíodo à fina ironia de Saramago, desde Édipo Rei (Sófocles) à trágica solidão de Macabéa (A hora da estrela – Clarice Lispector). A literatura e os outros recantos onde o mito permanece vivo, poupam-nos da loucura e da desenfreada perseguição ao novo deus: a Razão. E os tempos atuais nos mostram que a nova mitologia abriga apenas uma única razão: o lucro. Nada é mais importante que a riqueza material.
O filósofo italiano Nuccio Ordine (1958–2023) nos lembra, no livro “A utilidade do inútil”, que vivemos sob a supremacia do ter sobre o ser:
“uma sociedade desigual, rigidamente dividida entre senhores e serviçais, entre ricos aproveitadores e pobres degradados como se fossem animais, tal como descrita por Padula, não corresponde mais, ao menos em grande parte, ao retrato do mundo em que vivemos. No entanto, em formas muito diversas e mais sofisticadas, ainda persiste uma supremacia do ter sobre o ser, uma ditadura do lucro e da posse, que atinge todos os âmbitos do saber e todos os nossos comportamentos cotidianos.”
III. A nostalgia do sagrado
Ainda assim — em um mundo sem deuses —, a literatura carrega uma nostalgia persistente. Ao narrar esse mundo, ela revive mitos e invoca forças divinas. No fundo, o escritor moderno continua sendo um sacerdote que perdeu o templo, mas não a vocação. A página branca é o seu altar e os ritos são celebrados em cada romance, como uma tentativa de reconciliação com o divino — um feitiço de retorno.
O mito não desapareceu; apenas mudou de endereço. Vive agora nas entrelinhas, nas vozes fragmentadas, nos sonhos que insistem em falar uma língua que esquecemos. Cada autor, à sua forma, cria sua mitologia interior: deuses subjetivos, rituais pessoais, o sagrado reencarnado na linguagem. Se os antigos acreditavam em Zeus, Dioniso e Afrodite, nós passamos a crer em arquétipos e neuroses. O inconsciente tornou-se o novo templo, e o escritor, o intérprete de suas divindades silenciosas.
V. Epílogo: o mito por vir
Acredito estarmos em uma “era do desespero”, sem metafísica, mas talvez à beira de um novo ciclo. Em meio à saturação tecnológica e à perda de vínculos simbólicos, cresce o desejo por narrativas que restituam o mistério. O leitor cansado do espetáculo anseia por uma palavra que o reconecte à fonte — aquilo que Mircea Eliade chamava de hierofania: o instante em que o sagrado se revela no profano.
A tarefa do escritor, então, é escutar novamente o murmúrio dos deuses. Eles não se foram — apenas esperam que alguém lhes devolva a voz.
E para finalizar, deixo aqui a voz do sagrado, emprestada a uma personagem de um romance em que trabalho:
“Aqui, nesta selva, eu sou rainha, ando no tempo e quebro demanda. Sou mensageira da Cobra Grande, derreto a cera de abelha e liberto a noite. Do mesmo jeito que liberto, posso prender, se precisar. Quando a filha da Cobra Grande casou, ensinei a tirar a noite de dentro do caroço de tucum; ela tirou uma que durou um mês. Depois, ensinei a botar a noite de novo lá dentro e lacrar o tucum com cera de abelha. Ensinei a criar passarinho para anunciar as horas do dia e da noite, as horas abertas e as fechadas; por isso eu escuto o tinido rouco do jacu de barbela no clarear do dia e, de noite, meu coração se enche da tristeza que brota da garganta do inhambu. Primeiro vem o pio de agonia, sonoro e lento; depois apressa, um atrás do outro, som surdo de espada cortando o ar, matando o resto do dia que finda. Assim vou seguir, se o medo me dominar, derreto o caroço de tucum e lanço sombras no mundo, se me perseguirem, rasgo o espaço e desapareço. Sete Saias me protege. Exu vigia meu sono e tranca os caminhos do inimigo.”
Novembro/2025
Conversa
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