“Aqui, nesta selva, eu sou rainha, rasgo o espaço, ando no tempo e quebro demanda. Sou mensageira da Cobra-grande, derreto a cera de abelha e liberto a noite. Do mesmo jeito que liberto, posso prender, se precisar.
Quando a filha da Cobra grande se casou, ensinei a tirar a noite de dentro do caroço de tucum; tirou uma que durou um mês. Depois, ensinei a botar a noite, de novo, lá dentro e lacrar o tucum com cera de abelha.
Ensinei criar passarinho para anunciar as horas do dia e da noite, as horas abertas e as fechadas. Por isso eu escuto o tinido rouco do jacu de barbela no clarear do dia e, de noite, meu coração se enche da tristeza que brota da garganta do inhambu. Primeiro vem o pio de agonia, sonoro e lento; depois apressa, um atrás do outro, som surdo de espada cortando o ar, matando o resto do dia que finda.
Assim vou seguir, se o medo me dominar, derreto o caroço de tucum e lanço sombras no mundo. Se me perseguirem, rasgo o espaço e desapareço.
Sete Saias me protege. Exu vigia meu sono e tranca os caminhos do inimigo.”
Esse texto, em forma de oração, está em um livro ainda em gestação. Trata-se de uma ex-escrava, que recita as palavras ensinadas por sua avó, a serem utilizadas em tempos de aflição.
O texto faz menção a um mito indígena — O Mito do Tucum — da região Amazônica, que nos conta sobre a origem da noite e pode ser reproduzido assim:
No início, não existia a noite no mundo. Ela estava guardada por uma serpente — a Cobra Grande — no fundo das águas.
O dia era iluminado durantes as vinte e quatro horas e isso perturbava o sono, o repouso noturno, certos rituais e todas as coisas que têm mais significados na escuridão da noite.
A filha da Cobra Grande se apaixonou, casou-se e pediu à mãe que libertasse a noite para que os noivos tivessem sua lua de mel. A mãe aceitou o pedido e recebeu os mensageiros enviados ao fundo das águas. Deu-lhes um caroço de Tucumã, lacrado com cera de abelha e recomendou: levem esta encomenda aos noivos e não abram este caroço.
Na viagem de volta, um dos mensageiros escutou barulhos dentro do caroço e convenceu os outros a derreterem a cera de abelha e ver o que tinha lá dentro.
Libertaram a noite e o mundo escureceu.
A noiva não gostou da noite eterna.
Quando a estrela solar surgiu de madrugada, a filha da Cobra Grande separou o dia e a noite e criou pássaros para marcar as etapas: o Cujubim cantou para o amanhecer e o Inhambu anunciou o entardecer. Os mensageiros foram punidos. Ela os transformou em macacos de boca preta (a fumaça da noite sobre o mundo) e risco amarelo (a cera de abelha derretida).
Para lembrar: esta história tem todos os elementos do mito.
É uma história sagrada de criação (a noite). Tem entes sobrenaturais e se passa em um tempo primordial (no início). Os fatos ocorrem fora do espaço (no fundo das águas, durante a viagem dos mensageiros e na entrega da encomenda — onde ocorreu isso?).
Tudo se passa para a restaurar a ordem do cosmo e explicar as coisas inexplicáveis.
Um abraço.
Junho/2025
Marco Cotrim
Foto: Tucum (Bactris setosa) no cerrado de Goiás, Brasil. Autor: MarcosM / CC BY-SA 3.0
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