Escrita Criativa

A arte de criar mundos

5 min de leitura

Imagine que você começou a ler um romance policial, anunciado como a história da investigação de uma família rica, logo após a morte do patriarca. A contracapa do romance diz que um herdeiro desconhecido foi assassinado e o astuto detetive Sherlóquisson Alves Guimarães Pereira foi contratado para desvendar o crime.

A história se passa na década de 70 do século XX e começa assim:

Sherlóquisson, velho conhecido da polícia, transitava pela cena do crime com desenvoltura. Era um quarto de hotel de quinta categoria na Alameda Cleveland, nas imediações da antiga Estação Rodoviária de São Paulo. O morto estava deitado de bruços, próximo à cama, e apresentava um ferimento na nuca. O detetive concentrava sua atenção em uma pequena poça de sangue e no vaso quebrado ao lado do corpo. Retirou o celular da sua bolsa a tiracolo e começou a fotografar a cena…

Há alguma coisa errada aqui… É UM ERRO QUANTO À VEROSSIMILHANÇA.

Para início de conversa, nada melhor que o velho Houaiss:

Verossimilhança

Substantivo feminino

1 qualidade do que é verossímil ou verossimilhante
2 lit ligação, nexo ou harmonia entre fatos, ideias etc. numa obra literária, ainda que os elementos imaginosos ou fantásticos sejam determinantes no texto; coerência.

No livro “Poética”, de Aristóteles, já encontramos o conceito de verossimilhança, que poderia ser condensado assim: na criação literária, é melhor o “impossível provável” que o “possível improvável”.

O “impossível provável” é elemento impossível para a realidade, mas verossímil para o contexto. É plausível ante a verdade da história que se conta (p.ex: os elementos sobrenaturais do livro “A Erva do Diabo” — Os ensinamentos de D. Juan — de Carlos Castañeda).

Quanto ao “improvável possível”, embora possa ser real, quando inserido em uma obra de ficção viola a “lógica interna” da obra e pode resultar em uma solução “Deus ex-machina” (solução externa que é inverossímil na obra, dilema resolvido de modo forçada. Por exemplo: É possível que um piano caia do décimo andar e mate um transeunte, mas se você fizer isso com um personagem, o leitor pode não gostar. Há que contextualizar a queda desse piano).

Pilares da Verossimilhança

Coerência interna (verossimilhança interna)— As regras do mundo ficcional devem ser consistentes. Em uma das suas magistrais aulas, o professor Assis Brasil ensina que “se um personagem vai morrer de tuberculose ao final, é bom que ele tenha tosse em um dos capítulos anteriores”.

Referências na realidade (verossimilhança externa) — Mesmo em escrita fantástica, a base de um evento deve ser reconhecível na realidade que nos cerca. Seja uma história de príncipes e dragões. Há uma cena em que o dragão invade uma loja de chocolates de devora todos os doces que encontra. Você pode colocar um repórter que tira o celular do bolso e fotografa a cena insólita, desde que a referência de tempo seja compatível com a época de existência dos celulares. Caso a história se passe em 1940, é melhor que o repórter saque sua “Rolleiflex”.

Psicologia Compatível — O personagem tem uma psicologia que você definiu e deverá agir de acordo com esses valores. Imagine o desastre se você criou um personagem cruel (p. ex: um assassino frio) e, de repente, ele se comporta como a madre Teresa de Calcutá.

Construindo Verossimilhança

Parece simples, mas não é. Quando se escreve uma frase ou um parágrafo, é muito tranquilo manter a verossimilhança. Isto não vale para um romance de 300 0u 400 páginas. A gente se perde facilmente.

Tenho um exemplo bem atual (junho de 2025): há uns dois meses, estou embatucado com a verossimilhança de um personagem complexo, o qual deve sofrer grandes alterações de personalidade em um romance de mais ou menos 300 páginas. Cada vez que releio, encontro um ou outro furo no comportamento do rapaz. Tenho que desenvolver grande conflito interno e sofrimento do personagem para dar credibilidade às suas ações. Um dia conseguirei.

Há que se preencher as lacunas com detalhes para manter a verossimilhança. Por exemplo: se o personagem tem insônia, é melhor que ele more no centro de uma cidade grande e tenha vida atribulada. Se ele morar no campo e tiver uma vida tranquila, fica mais difícil justificar a insônia.

Os detalhes sensoriais podem ajudar. Por exemplo: ela atravessou a rua e matou o amante. Péssima descrição de um crime passional. Que tal descrever assim: ela bateu a porta, atravessou a rua entre buzinas e freadas, segurou a faca com força e descarregou sua ira no peito do amante. Não fugiu, apenas olhou o corpo caído e o fio vermelho que escorreu pela calçada. Estava vingada dos anos de desprezo e humilhação.

Vale lembrar que a verossimilhança nada tem a ver com a realidade. Quando Gabriel Garcia Marques diz (em Cem Anos de Solidão) que “Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias.”, isso é cabível na realidade de “Macondo”.

Enfim: A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade — Pablo Picasso.

A verossimilhança é a “verdade” dentro da mentira que se conta. Enquanto se tece a trama da narrativa, deve-se arrematar cada fio entrelaçado com um nó firme, capaz de suspender a descrença do leitor e fazer com que ele aceite o “pacto ficcional” e permaneça até o final da sua história.

Um abraço

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