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A descoberta dói

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A passagem entre a escuridão e o conhecimento é dolorosa como nascida madura na hora de espremer e tirar o carnegão, tudo o que se sabia pode virar pó de uma hora para outra; a gente pode ficar sem chão. Assim eu me sentia a cada novidade aprendida, a cada livro lido ou cada conversa conversada com as pessoas mais sabidas. Doía, mas todo dia eu abria a cabeça um pouquinho mais, para entrar conhecimento, que dói no começo, mas é saboroso no final. A partir de certo tempo, não lembro com exatidão da época; só lembro que comecei gostar de conversar sobre o reino e o mundo, ler jornal, assistir noticiário, saber de terras distantes e imaginar viagens para esses lugares. A cabeça ficou mais macia, aprendi palavras e a situação para usar cada uma delas. Até poesia, eu, que só conhecia cordel, arrisquei ler umas vezes; de música eu só escutei Luiz Gonzaga no rádio e os forrós tocados pelos sanfoneiros no São João.

Essa sabença toda veio por obra do meu filho e seus amigos estudantes, que se juntavam em nossa casa. Eu me sentava com eles, mais para ouvir que para falar; essa foi a escola que não tive na meninice. Foi esse, o jeito dificultoso de voltar no tempo e nascer de novo, aprender a repensar na vida, perceber a melhoria que tinha chegado com a mudança para a cidade grande.

Petronília, alegre com a mudança, ficou mais risonha; a lida da casa ficou simples com os confortos adquiridos. Fogão a gás, acender só com o riscar do fósforo, sem juntar graveto e molhar com querosene, sem respirar a fumaça do fogão de lenha. Ela teve mais tempo para tudo, podia passear com o menino Beny, viajar de trem e visitar os parentes. Depois da janta era uma alegria assistir jornal e novela na televisão.

O céu deve ser quase assim, uns confortos adquiridos com dinheiro e outros, adquiridos com o pensamento.

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