O Grande Amor
(este miniconto virou um conto)
João Paulo se apresentou na escola às treze horas da segunda-feira e perguntou à primeira pessoa que viu: sabe onde é o primeiro científico? Quando levantou os olhos, a garota lhe disse.
— Nossa, você está branco. Quer água?
— Não, obrigado.
— Eu também sou do primeiro científico. É lá no último pavilhão. Vamos juntos?
Ele balançou a cabeça e a seguiu.
Chegaram, ela se despediu e disse seu nome: Valéria. Ele agradeceu e entrou.
Surgiu o professor de português, cumprimentou os alunos e começou a aula.
Daí em diante, o tempo voou. O futebol, o laboratório, as tarefas e o grupo de teatro encheram seus dias.
Quando encontrou Valéria pela segunda vez, o ano letivo já ia adiantado.
Chegaram as férias e o mundo de João Paulo desabou. Nada que fazer. Só esperar.
No primeiro dia do segundo ano, eles voltaram a se encontrar no portão. Entraram juntos.
Surpresa!
Estavam na mesma classe. Passaram a se cumprimentar e trocar algumas palavras. Um dia ele a convidou para o grupo de teatro e a amizade se aprofundou.
— João Paulo, o que você vai fazer da vida?
— Sei lá. Vou viver.
— Estou falando de dinheiro, sobrevivência.
— Acho que vou ser advogado. Influência do Professor Gabriel.
A conversa não progrediu porque a aula começou. O professor entrou na sala e disse: hoje, vamos dialogar com Camões.
O diálogo camoniano se desdobrou em outro grupo de estudo, com encontro marcado na casa da Valéria, no sábado seguinte. Chegaram às nove, exceto a Aninha e o Pedro Pereira, que chegaram às nove e meia.
Ao meio-dia foram chamados para o almoço. João Paulo hesitou várias vezes ante a abundância de louças, talheres e comidas. Valéria o ajudou, discretamente, a terminar o almoço sem cometer gafes.
De volta às tarefas, João Paulo perguntou à Valéria, entre risadas:
— Então… o nome daquele pratão é “sousplat”?
Ela riu, fingiu puxar sua orelha e encostou sua testa na dele. Foi a primeira vez que ele sentiu seu cheiro e viu a beleza dos olhos e a profundidade daquele olhar negro. João fechou os olhos para desaparecer dentro dela.
A partir de Camões, viam-se amiúde. Um dia ele a convidou para a vesperal.
Ela aceitou.
Domingo, cinco da tarde. Ele comprou bombons e, no escurinho do cinema, abriu-os e colocou um deles entre os dentes da menina. Cada bombom que um oferecia ao outro implicava a aproximação das faces ou um leve roçar do cotovelo no peito de Valéria. As luzes do final da sessão os surpreenderam em um beijo, como no filme.
Ao final do segundo ano, não se desgrudavam mais.
***
O grupo de teatro recebeu convite para uma apresentação em cidade vizinha. Após exaustivas recomendações, a mãe permitiu a viagem de Valéria. Sentaram-se juntos no ônibus
A chegada da noite propiciou silenciosa exploração dos corpos um do outro. Após a peça, jantaram no colégio que os alojou. Não pensavam na comida, mas nas maneiras de contornar a vigilância das freiras e completar o que ficara incompleto. Conseguiram o seu intento. Aprenderam juntos e se amaram até a madrugada, quando João Paulo voltou, sorrateiramente, ao seu próprio alojamento.
***
Vieram as férias. Para Valéria, não foi simples dizer à mãe que não queria ir à capital ficar com as primas. Precisava ler alguns livros do vestibular e não passaria as últimas férias longe das amigas. Convenceu a mãe.
O grupo de amigos se reuniu algumas vezes durante as férias. João Paulo e Valéria sempre juntos. A amiga se queixou.
— Valéria, não sei o que você vê no João. Ainda por cima é pobre.
— Pobreza é temporária, Aninha. O João vai ser advogado e ficar rico. Você não tem uma queda pelo Pedro? Ele é pobre também.
— Pedro Pereira é pobre, mas é nobre… família tradicional.
Após a experiência no colégio de freiras, João teve certeza de que nunca se separariam. A presença dela nunca era demasiada. Viam-se com frequência, mas a saudade voltava minutos após cada despedida.
Veio o terceiro ano, pleno de amor.
A família de Valéria soube do namoro. O pai queria obrigá-la a se afastar de imediato. A mãe acalmou-o.
Ao fim de muita discussão, aceitaram o namoro no portão.
Ao final do terceiro ano, marcaram um último encontro: um fim de semana com a Valéria, na fazenda do pai. Era perto do Natal e todos estavam radiantes, exceto Valéria. João percebeu a ausência do sorriso e algum inchaço nos olhos.
Os adultos autorizaram um “luau” com fogueira e bebidas não alcoólicas. No fim da tarde de sábado, os jovens acenderam uma fogueira e montaram barracas para o luau, que foi até a madrugada.
Para finalizar o passeio, combinaram uma caminhada na manhã do domingo: trilha de uma hora até uma montanha na fazenda. Os metros finais eram de rochas inclinadas até um platô, que terminava em uma parede vertical.
Após passeios e lanches, descansaram à sombra de alguns arbustos que insistiam em crescer entre as rochas. João Paulo se sentou. Valéria deitou-se com a cabeça em seu colo e permaneceu de olhos fechados.
— O que é que você tem?
— Não tenho nada, só estou pensando.
— No que está pensando? Arrumou outro?
— Deixa de bobagem. Você é o meu grande amor…, mas o papai está bravo comigo.
— Velhos sempre implicam… quem sabe a gente pensa em algo.
— Nós éramos o assunto… Você sabe que lá em casa as mulheres não vão para a faculdade na capital. A minha irmã parou no científico e espera o casamento.
— Sei, mas nós dois podemos mudar isso. A gente se casa, trabalha e estuda.
— Trabalhar no quê? Vamos viver uma vida miserável.
— Trabalhar no que aparecer. Uma vida cheia de amor nunca será uma vida miserável.
— Meu pai me mata. Ele quer que a gente termine… eu não quero, mas acho que seremos obrigados. Já pensou se abandonarmos nossos pais e cairmos na miséria?
Ele empalideceu.
— Não fique assim, João… Você está me assustando. O que foi isso?
— Medo de te perder.
— Eu também tenho medo. Cada minuto que eu passo longe de você é um martírio. Mas não vejo solução. O papai conversou comigo e chorei a noite toda. Por isso estava calada. Ele falou sobre a situação financeira da sua família, que o seu pai tem uma banca no mercado e não poderia pagar seus gastos durante a faculdade.
— Claro que não vai poder pagar. Vou ter que arranjar emprego. E o que mais?
— Me deu um ultimato.
— Ultimato? Você tem que se afastar de mim?
— Foi o que ele falou. A partir de amanhã não poderemos mais nos encontrar.
Ela soluçou e o beijou novamente. Eles se levantaram e João a envolveu em um abraço. Mais uma vez inalou, profundamente, o seu cheiro. Pouco depois se afastou e a olhou nos olhos.
— Pelo amor de Deus, João. Eu não quero terminar, quero viver com você, mas o papai me disse que não vai deixar, porque você não tem onde cair morto.
— Meu amor, a gente sempre tem onde cair morto.
O vento soprava forte e ela não ouviu suas últimas palavras.
— O que você falou?
Ele não respondeu.
Andou em direção à borda do penhasco e saltou.
Marco Cotrim
Agosto/2026
Esse conto também está narrado seção Vídeos – Escrita Criativa.
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