Prosa

Um pouco sobre um romance em construção (Leocádia).

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PREMISSA
A história conta a curta vida de menina branca sarará, neta de escravos que recebe um presente de poderoso coronel — um corte de tecido — e é assassinada, a mando da esposa do coronel, por motivo de ciúme. Seu túmulo se transforma em local de romaria e a menina é “santificada” pela população.

SINOPSE
No sertão baiano da segunda metade do século XIX — tempo de secas, fé e injustiças — nasce a história de Leocádia, moça livre e trabalhadora, filha de lavradores pobres. Sua beleza desperta o desejo de um poderoso coronel, que lhe oferece um corte de tecido, luxo raro naqueles confins. O gesto acende o ciúme de sua esposa e aciona o mecanismo perverso do poder local.

Leocádia é emboscada por jagunços, seviciada e assassinada. Seu corpo é jogado em uma fenda de lajedo, um poço natural onde a água da chuva se acumula, e cujo formato lembra um caixão de defunto. O crime, logo abafado pelos poderosos, é apenas mais um entre tantos silêncios do sertão. Mas o povo, testemunha invisível, começa a murmurar. Dizem que à noite a água do poço brilha, que os doentes saram ao tocá-la, que há perfume de flores onde ninguém as plantou.

A tragédia da jovem se transforma em milagre. O poço da Leocádia passa a receber visitas, promessas e romeiros vindos de longe. De assassinada sem nome, ela se torna santa popular, protetora das moças, dos trabalhadores e das mulheres ofendidas. O coronel morre amaldiçoado; a esposa enlouquece; e o povo, que nunca teve justiça, encontra redenção na santificação espontânea daquela que morreu inocente.

O romance entrelaça memória e mito, violência e fé, reconstruindo a gênese de um culto popular que atravessa mais de um século. Na fronteira entre o real e o lendário, Leocádia é a história de uma redenção pelo sagrado, nascida do crime e sustentada pela devoção — a narrativa de uma mulher cuja morte injusta se converteu em esperança para os esquecidos do sertão.

PS: A foto acima poderá se transformar na capa do meu novo livro. Trata-se do poço situado no município de Guanambi-BA, onde foi jogado o corpo da jovem Leocádia no final do século XIX. 

Marco Cotrim
Fevereiro de 2026

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