A frase do título é uma expressão conhecida por todos que já se arriscaram pelos labirintos da Escrita Criativa (é o meu caso de aprendiz de escritor). Em tradução livre, significa: mostre, não conte. Se você tem alguma curiosidade pela Escrita Criativa, termine de ler este artigo em que tento explicar o significado dessa expressão e a motivação que resultou neste artigo.
“Show” e “tell”
Se você for à internet, encontrará dezenas de explicações, mais uma não fará mal. A ideia principal é “mostrar” as ações, os sentimentos e os cenários; e não apenas “contar”. Diz-se que é melhor que o leitor experimente a história por meio de ações, sensações e sentimentos em vez de receber a descrição impessoal dos fatos. Quando se “mostra” o sofrimento do herói, o leitor sofre com ele, quando o personagem vê algo e grita de dor, o leitor também vê e ouve o seu grito. Mas aqui já surge o primeiro problema: só mostrar pode cansar o leitor, pode transformar o seu romance em um roteiro de “thriller” (suspense). Isso não deverá ser um problema se você escreveu um roteiro de thriller, mas não será muito agradável se você escreveu um romance lento, de época, no qual as descrições de cenários são importantes para situar o leitor, por exemplo.
Há situações em que “contar” será melhor que “mostrar”, conforme explicam muitos manuais. Por exemplo, algumas transições de cenas em que se resumem fatos pouco importantes apenas para passar à cena seguinte. Quando se quer acelerar a cena e passar rapidamente determinado tempo, é melhor contar que mostrar.
Uma coisa que não se aprende com os manuais (talvez a mais difícil de se conseguir) e que deve ser sentida pelo escritor é o equilíbrio necessário e suficiente entre “mostrar” e “contar” para que a história continue interessando ao leitor e ele vire a página.
O motivo para escrever este artigo
Estou no meu quarto livro (três já publicados). Se você nunca ouviu falar de mim, não se preocupe com isso, a explicação é simples: sou totalmente desconhecido, meus livros são autopublicados e se destinam a presentear amigos e família (não nego que já vendi uma meia dúzia de exemplares).
Este artigo se explica pelas dificuldades que enfrento na escrita do meu atual livro, que é uma história de época e necessita de inúmeras informações básicas para a contextualizar tudo no panorama histórico. O título do meu novo romance é Leocádia, a história — passada no final do sec. XIX — conta a curta vida de menina branca sarará, neta de escravos que recebe um presente de poderoso coronel — um corte de tecido — e é assassinada, a mando da esposa do coronel, por motivo de ciúme. Seu túmulo se transforma em local de romaria e a menina é “santificada” pela população. Eu diria que é um romance de época, com um toque de “realismo fantástico latino-americano”. A maior dificuldade que encontrei até agora foi equilibrar o “show” e o “tell”. Sabe aquele desespero que bate quando os remédios não funcionam e você começa a buscar milagres? Acho que é o caso: sugestões sempre serão bem-vindas.
Estando um pouco perdido neste cipoal, vou estudando, testando, escrevendo e reescrevendo, até que surjam as soluções e eu seja capaz de oferecer ao leitor uma história que mereça ser lida. Dentre as dezenas de livros e artigos lidos para o meu livro, encontrei um pequeno livro que está na seção “Sugestões de Leitura” deste blog. O título é: Como melhorar um texto literário” e os autores são Lola Sabarich e Felipe Dintel(Tradução de Gabriel Perissé – Editora Gutenberg). Foi o que encontrei de melhor para alcançar o equilíbrio buscado e o recomendo para todos que escrevem textos literários. É um livro curto, com texto muito claro e oferece muitos exemplos do que se deve contar e do que se deve mostrar. Foi útil para mim, espero que também o seja para você, caso queira aprender “mostrar” o que deve ser vivido e “contar” o que deve ser compreendido, sem nunca subestimar a inteligência do leitor.
Marco Cotrim
Fevereiro de 2026
Conversa
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