
No meu tempo de escola não havia ensino fundamental e ensino médio. O ciclo básico era composto de escola primária, ginásio e colegial. O certificado de conclusão do primário não era necessário para começar o ginasial, pois existia o Exame de Admissão — uma espécie de “vestibulinho” — para se entrar no ginásio. Isso é para explicar que, no ginasial e no colegial, ensinaram-me que o Brasil é um país cordial.
Entre o ginásio e o colégio, comecei a ler Jorge Amado e surgiram-me as primeiras dúvidas. Terras do sem-fim me apresentou outro Brasil: duro, sangrento, cheio de gente ruim, que matava por qualquer desavença na conquista das terras cacaueiras do sul da Bahia.
Em Jorge Amado, vi um Brasil banhado em sangue, vi tiroteios, tocaias e cobiça; misturados à luta pela sobrevivência. Vi crimes e intrigas, coronéis, pistoleiros e jagunços. Enfim, essa era a história, esse era o preço da riqueza anunciada com tanto ufanismo: o cacau.
Terras do sem-fim é ficção, não um tratado de sociologia, mas podia ser um livro de “sociologia da morte”. É o que vejo nas palavras de Jorge Amado: “Mata-se de facão e de picareta, de cartucheira e de ronca, de bala e de pau. Mata-se pelo sonho da terra.
Livros são assim, ora, pois! Podem destruir ilusões. Essa foi apenas a primeira ilusão destruída sobre o meu país.
Este livro é uma leitura obrigatória.
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